A Record tem cada coisa. É impressionante como a emissora se preocupa mais com a vida das concorrentes e, em especial da Globo, do que com os próprios problemas. Desde o lançamento da nova novela das nove, Salve Jorge, exibida pela Globo, o dono da Record, Edir Macedo, mobiliza os evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus para boicotar a novela de Glória Perez. O grupo, se dizendo indignado, alega que a trama venera o orixá Ogum, sincretizado pelos cariocas com São Jorge (na Bahia, a associação com o santo católico é com o orixá Oxóssi). O mesmo grupo que organiza o protesto diz que o folhetim "faz apologia ao lesbianismo e à igreja Católica". Os evangélicos fazem campanha na internet para que todos os seguidores desse credo ignorem a novela. A emissora, que não é besta nem nada, puxa sardinha para seu lado, recomendando que Rei Davi, uma minissérie que a Record está reapresentando menos de cinco meses após sua exibição inédita, é a melhor opção para o público. Edir Macedo, em seu blog pessoal, ainda postou um desenho com Davi atirando uma pedra em São Jorge. Inexplicável tanta violência.

O tiroteio disparado por Macedo em direção a Salve Jorge foi um tiro no pé. A trama da Globo conseguiu aumentar a audiência no segundo capítulo. Dos 35 pontos de média obtidos no capítulo de estreia, na segunda-feira, 22, Salve Jorge pulou, nesta terça, 23, para 36,2, com picos de 40 pontos. Um aumento de 1,2 no ibope. Cada ponto equivale a 60 mil domicílios no estado de São paulo. Para se ter uma ideia do que isso representa, desde Roque Santeiro (1985) já era certeza: uma novela da Globo não conseguia superar, no segundo capítulo, o Ibope de estreia. Não foi o que aconteceu. Seria recomendável para a Record se dedicar mais aos próprios problemas. Alavancar a audiência da programação já é uma boa razão para não precisar boicotar nenhuma emissora e seguir em frente no caminho em busca da liderança.
Reprodução do "Teleanálise" do ATARDE