Da Agência O Globo O último a renunciar, ainda que relutantemente, foi Gregório XII, em 1415. Mesmo sem nunca repetir a intensa agenda de viagens de João Paulo II, a saúde de Bento XVI dava sinais de fragilidade nos últimos anos. Joseph Ratzinger se tornou Papa aos 78 anos, o mais velho escolhido para o cargo em 275 anos. Fiel ao perfil de um homem mais confortável entre livros do que entre pessoas, o apelidado de Bento XVI anunciou sua saída em latim, citando a idade avançada como uma das justificativas: "Ciente da seriedade deste ato, com total liberdade declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro, confiado a mim pelos cardeais em 19 de abril de 2005",
anunciou, diante de cardeais convocados para a Sala do Consistório, no Vaticano, onde esperavam ouvir três canonizações, até serem pegos de surpresa pelas declarações do Pontífice. Ainda assim, o anúncio está longe de ser resultado de uma decisão intempestiva. Segundo Giovanni Maria Vian, diretor do ?L?Osservatore Romano?, o jornal oficial do Vaticano, a medida foi decidida em março do ano passado, quando em viagem a México e Cuba, Bento XVI apareceu pela primeira vez em público apoiado numa bengala. O próprio Bento XVI já havia se expressado publicamente a favor da renúncia como opção legítima quando o Papa não tem mais condições de continuar. Alguns especialistas argumentam que sua proximidade de João Paulo II durante os últimos anos do Pontífice contribuiu para influenciar sua opinião a respeito. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que o anúncio havia sido uma surpresa, o que indica que nem mesmo o círculo mais próximo do Papa estava a par. Lombardi ressaltou que a decisão não havia sido motivada por pressões externas ou enfermidades, e a atribuiu ao progressivo declínio de suas forças, o que seria natural para um homem de 85 anos: "Nos últimos meses, ele tem apresentado um declínio em vigor, do corpo e do espírito". Segundo o porta-voz do Vaticano, logo após a renúncia, Bento XVI ficará um período na residência papal de verão, em Castelgandolfo, enquanto aguarda a realização de obras num antigo mosteiro do Vaticano. No futuro, Bento XVI deve voltar a uma de suas atividades preferidas, os estudos teológicos. Ainda assim, é esperada forte influência do Pontífice na escolha de seu sucessor. Entre 15 e 20 dias depois da renúncia começa a reunião do conclave. De acordo com Lombardi, a expectativa é que até o fim de março seja eleito um novo Papa. Líderes mundiais prestaram homenagem a Bento XVI. Em nota, o presidente dos EUA, Barack Obama, relembrou a visita que fez com Michelle ao Pontífice em 2009 e disse que a Igreja tem papel fundamental nos EUA. O premier britânico, David Cameron, disse que ele será lembrado como o líder espiritual de milhões. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, reiterou que é preciso respeitar a decisão do Papa, a quem se referiu como alguém profundamente educado, de grande senso histórico e interessado na unificação europeia. "Numa era em que as pessoas estão vivendo cada vez mais, muitas pessoas podem entender como o Papa está tendo que lidar com os fardos do envelhecimento", disse. O Papado de Bento XVI ? considerado heroico por conservadores e visto com desconfiança pela ala mais progressista da Igreja ? foi marcado por escândalos de abusos sexuais contra crianças que afetaram a imagem do Catolicismo. Ele pediu desculpas e se encontrou com as vítimas, mas não escapou às críticas pelo fato de a Igreja ter blindado padres acusados e mantido casos em sigilo, impedindo processos criminais. Entre os momentos marcantes de seu Pontificado destaca-se uma visita à Alemanha, onde confrontou a História de seu país. Ele rezou e perguntou a Deus o motivo de ter ficado em silêncio quando 1,5 milhão de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial. Mas a viagem não foi isenta de polêmicas. Durante uma palestra numa universidade, ele citou um imperador bizantino do século XIV, dizendo que o Islã trouxe apenas o mal ao mundo. No ano passado, um outro escândalo eclodiu com o vazamento de documentos secretos, que tratavam de corrupção nos negócios do Vaticano, no caso conhecido como VatiLeaks. O responsável pela divulgação era o mordomo de Bento XVI, condenado pela Justiça, mas perdoado pelo Pontífice. Ao novo Papa, caberá agora a tarefa de guiar os católicos e superar as controvérsias ainda não resolvidas.