Nesta terça-feira (25), Cachoeira se torna, simbolicamente, a capital da Bahia. O gesto, mais do que protocolar, carrega o peso de uma história que completa 203 anos: foi ali, às margens do Paraguaçu, que baianos e baianas iniciaram o movimento armado que culminaria, em 2 de julho de 1823, com a independência da Bahia e a expulsão definitiva das tropas portuguesas.
A cerimônia oficial começou com o hasteamento dos pavilhões na sede da Câmara de Vereadores, conduzido pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), ao lado da prefeita Eliana Gonzaga (PT) e do presidente da Câmara, Josmar Barbosa (Republicanos). Durante todo o dia, o governo estadual despachou da cidade, como prevê a Lei Estadual nº 10.695, em vigor desde 2007.
“Ter nossa cidade como capital por um dia é um reconhecimento de que Cachoeira segue sendo espaço de decisões. Somos o museu da independência a céu aberto”, afirmou a prefeita Eliana Gonzaga, na solenidade.
Do Paraguaçu ao Brasil: o início da independência
A escolha do 25 de junho como data simbólica não é aleatória. Em 1822, ainda sob tensão com as tropas portuguesas em Salvador, lideranças políticas, militares e civis de Cachoeira decidiram romper com a Coroa, declarar fidelidade a Dom Pedro e convocar outras vilas baianas a aderirem à causa. Foram 94 assinaturas registradas na ata da Câmara Municipal, dando início à campanha que resultaria na libertação da Bahia.
A primeira vitória veio dias depois: em 28 de junho, após três dias de confronto, os revoltosos tomaram uma embarcação portuguesa no Rio Paraguaçu. Foi o embrião da marcha que terminaria um ano depois com a chegada das tropas brasileiras a Salvador, em 2 de julho de 1823.
“Enquanto o Recôncavo vivia a liberdade, Salvador ainda era sede lusitana. Cachoeira foi a primeira capital de um Brasil livre”, lembra o historiador Fábio Batista.
Tradição, cultura e identidade
As comemorações começaram no dia anterior, com o tradicional encontro entre o caboclo de Cachoeira e a cabocla de São Félix, que permanecem juntos até o 2 de Julho. Neste 25, a cidade reviveu seu papel de protagonista histórica com samba de roda, desfile cívico e apresentações culturais.
“É o momento mais importante da história do país, e começou aqui. Vamos celebrar nossos heróis e heroínas com orgulho e festa”, disse Danniely, a "Maria Bonita do Recôncavo", uma das personagens populares presentes no cortejo.
O desfile, encerrado com homenagens ao casal caboclo e a presença de orquestras sinfônicas, reforçou o sentimento de identidade e resistência que marca a cidade. Mais do que memória, Cachoeira reivindica seu lugar na construção do Brasil.