Em entrevista ao Jornal Nacional, concedida nesta quinta-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil está aberto ao diálogo com os Estados Unidos, mas exigiu respeito às decisões soberanas do país. A declaração ocorre após o governo norte-americano anunciar a imposição de tarifas a produtos brasileiros. Lula classificou a medida como desinformada e disse que, caso não haja acordo, o Brasil responderá com tarifas equivalentes a partir de 1º de agosto.
Questionado sobre a ameaça do presidente Donald Trump de intensificar as tarifas caso o Brasil adote retaliações, Lula foi direto: “O que não se pode admitir é a ingerência de um país sobre outro, especialmente de um presidente sobre o Judiciário brasileiro”. Para ele, as motivações de Trump estão contaminadas por interesses pessoais e por uma “visão distorcida” da realidade comercial entre os países. O presidente criticou uma carta publicada por Trump em seu site, na qual o ex-mandatário norte-americano defende Bolsonaro e ataca as instituições brasileiras. “Aqui a Justiça é independente e funciona com base na lei, não por pressões externas”, pontuou.
Ao responder sobre eventuais motivações políticas para as tarifas — levantadas após críticas feitas por Lula aos Estados Unidos durante a cúpula dos Brics — o presidente negou qualquer relação. “O Brics representa quase 30% do PIB mundial e trabalha pelo fortalecimento do sul global. Nós cansamos de ser subordinados. Não precisamos da moeda americana para fazer comércio”, afirmou. Ele destacou ainda que o Brasil nunca reagiu negativamente à participação dos EUA em fóruns como o G7, e que espera o mesmo respeito.
Sobre críticas recebidas por sua visita à ex-presidente argentina Cristina Kirchner, condenada por corrupção, Lula rebateu com firmeza. Segundo ele, a ida foi autorizada pela Justiça argentina e teve caráter humanitário. “Jamais interferi em decisões judiciais de outros países, como também não aceito intromissões no Brasil”, afirmou. Ele reiterou que o ex-presidente Bolsonaro está sendo julgado por seus atos, com base em provas e depoimentos — inclusive de militares próximos.
Lula também comentou os impactos da medida norte-americana nas exportações brasileiras e cobrou alinhamento do setor empresarial com a posição do governo. “Vamos reunir os exportadores mais afetados — como os dos setores de aço, suco de laranja e aviação — para debater saídas. O Brasil não quer conflito, mas não vai se submeter a pressões injustas”, garantiu. O presidente classificou como inaceitável qualquer tentativa de minar a dignidade nacional e sugeriu que empresários que preferem ceder a exigências externas estão descompromissados com o país.
Ao ser questionado sobre a ausência de contato direto com Trump nos sete meses de mandato do norte-americano, Lula afirmou que enviou uma carta de congratulações pela vitória, mas não viu motivo para dialogar diretamente até o momento. “Presidente não liga para outro para contar piada. Não houve nenhuma comunicação formal sobre as tarifas. O mínimo que se espera entre chefes de Estado é respeito”, declarou. Lula ressaltou que está disposto a ligar para Trump, se for necessário, mas que aguarda o desdobramento das negociações. “Se for preciso, eu ligo. Mesmo correndo o risco de ser ignorado. Mas até agora, não houve motivo”, afirmou.
Questionado sobre uma possível convocação da embaixadora dos EUA no Brasil, Lula disse que essa decisão cabe ao Itamaraty. Ele reforçou, no entanto, o desconforto com a postura do governo norte-americano. “Trump mandou uma mensagem desrespeitosa por site, pedindo o fim da 'caça às bruxas' contra alguém que tentou dar um golpe neste país. Bolsonaro não apenas tentou deslegitimar as eleições, como também tramou contra autoridades. Aqui, a lei vale para todos”, finalizou.
A ação penal contra Bolsonaro, mencionada por Lula, tramita no Supremo Tribunal Federal e ainda não tem data para conclusão. Em depoimento recente, o ex-presidente negou envolvimento em planos ilegais e alegou que discutiu apenas alternativas constitucionais com militares aliados. Enquanto o cenário internacional se tensiona, o governo brasileiro aposta na diplomacia, mas não descarta o uso da reciprocidade como ferramenta de defesa comercial.