Professor Titular de Literatura Comparada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), João Cezar de Castro Rocha analisou os desafios do campo progressista diante da ascensão da extrema-direita no Brasil. Em entrevista ao Jornal da Bahia no Ar nesta segunda-feira (28), ele reconheceu que a esquerda ainda está atrás da extrema-direita no quesito comunicação, mas pontuou mais que isso. Para ele, o real desafio do campo progressista é a ação prática para enfrentar conflitos e privilégios.
“Temos que reconhecer, com humildade e honestidade intelectual, que a extrema-direita é mestra na retórica política no século XXI. Mas é uma retórica que, infelizmente, é a retórica do ódio [...]. Isso faz parte de uma questão mais complexa, que é a chamada economia da atenção. Como o número de ofertas, o tempo todo, se multiplica de forma vertiginosa no universo digital, para que você capture a atenção do usuário, você tem que fazer um gesto deslocado, uma dancinha louca, ser violento, ameaçar, é sempre preciso estar um tom acima dos outros para que a sua voz seja audível. Isso a extrema-direita faz melhor do que ninguém”, iniciou o professor.
Apesar disso, ele acredita que a esquerda não deve tentar imitar esse modus operandi, porque não faz parte da sua essência. Falta, segundo João Cezar de Castro Rocha, a esquerda reconhecer que o avanço da extrema-direita no mundo só foi possível por um ressentimento legítimo dos mais vulneráveis em relação ao sistema que mantém privilégios.
“Quando se trata de combater esses privilégios, o Congresso nunca permite. Quando se trata nessa proposta obscena de congelar o salário mínimo por seis anos, o Congresso concorda. Então os mais vulneráveis têm razão de ter ressentimento em relação ao sistema que é um sistema de preservação de privilégios. A extrema-direita toca nessa ferida. No Brasil, por exemplo, toca na segurança pública, que afeta a todos nós, mas muito mais aos mais vulneráveis. A extrema-direita, geralmente no mundo todo, aponta os problemas corretamente, por isso a aderência. agora o problema é que todas as soluções são falsas”, explicou.
Em contrapartida, aponta o professor, a esquerda não pode apenas dizer à população que trata-se de um problema estrutural que será resolvido apenas quando a sociedade for mais fraterna e solidária. “A pessoa quer uma melhora imediata, então o que parece é que o problema real do campo progressista em relação à extrema-direita não é uma questão de narrativa, é o problema da ação prática, temos que ser mais ousados e mais corajosos para enfrentar conflitos e para enfrentar privilégios”, concluiu.