Pojuca Memória
Pojuca relembra 42 anos do maior desastre de sua história ferroviária
Explosão de trem carregado de combustível em 1983 matou cerca de 100 pessoas e deixou marcas profundas na cidade
31/08/2025 11h47 Atualizada há 10 meses atrás
Por: Luana Velloso
Foto: Reprodução

Em 31 de agosto de 1983, Pojuca viveu um dos episódios mais trágicos de sua história: o descarrilamento de um trem da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), carregado com gasolina e diesel, que resultou na explosão de três vagões e na morte de cerca de 100 pessoas. A tragédia, que também deixou mais de 100 feridos, mudou para sempre a rotina do município, então uma pequena cidade com cerca de seis mil habitantes.

Naquele dia, a composição havia partido da Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde, com destino a Sergipe, transportando 22 vagões-tanque. Após o descarrilamento, cerca de 126 mil litros de combustível se espalharam pela área urbana. O solo da cidade ficou enxarcado pelo próprio combustível, que vazou durante todo o dia. A população, sem a noção do perigo, recolheu e armazenou o combustível em baldes, panelas, tonéis e outros recipientes dentro de suas casas. Alguns vendiam a gasolina a preços camaradas a taxistas e proprietários de carros que vinham de cidades vizinhas abastecer seus veículos. A lentidão das autoridades em conter o vazamento e a ação de saqueadores agravou a situação. Ao invés de isolar a área e impedir que a população se aproximasse, foram organizadas filas e feito o disciplinamento do saque.

A primeira explosão aconteceu por volta das 20h. A origem da fagulha que a provocou nunca foi esclarecida, podendo ter sido um fósforo ou a bomba usada para recolher a gasolina. O fogo se espalhou rapidamente pelo solo encharcado de combustível, atingindo residências e pessoas que estavam próximas, muitos curiosos, em sua maioria crianças e adolescentes. Trinta e seis pessoas ficaram carbonizadas. Até o fim da noite, 42 pessoas haviam morrido e mais de 70 estavam em estado grave, com queimaduras em 80 a 100% do corpo, além de inúmeros outros com queimaduras mais leves. Moradores relataram que a labareda de fogo chegava a mais de 30 metros, iluminando o céu a quilômetros de distância. Muitos saíram de suas casas em busca de proteção no Rio Pojuca. Aquela noite é descrita como um verdadeiro filme de terror.

O resgate ocorreu de forma emergencial, com ajuda improvisada de veículos particulares e coletivos que transportaram feridos até hospitais de Salvador. A dificuldade no atendimento médico, somada à demora da atuação das autoridades, acentuou a dor e o trauma coletivo. Muitos sobreviventes enfrentaram sequelas irreversíveis: passaram anos internados, foram submetidos a constantes cirurgias, enxertos e tratamentos dolorosos, carregando para sempre as marcas físicas e emocionais do desastre.

A Rede Ferroviária Federal foi responsabilizada civilmente e obrigada a indenizar famílias, mas ninguém chegou a ser punido criminalmente. A tragédia expôs falhas no transporte de combustíveis e forçou mudanças operacionais, embora muitas promessas de investimentos na ferrovia não tenham sido cumpridas. Em homenagem às vítimas, o dia 31 de agosto foi instituído como feriado municipal em Pojuca, garantindo que a memória do episódio seja preservada.

Quarenta e dois anos depois, o desastre segue como uma ferida aberta. Para sobreviventes e familiares, recordar a tragédia não é apenas reverenciar aqueles que perderam a vida, mas também manter viva a história de resistência de uma cidade marcada pela dor.