Vivemos um tempo em que a informação nos atravessa sem pausa, não é mesmo? Há tempos já se previa esse afogamento: um dia estaríamos “literalmente submersos” em dados sobre o corpo, o salário, a saúde, a vida familiar, basta escolher um tema, e em segundos já estamos inundados. E em um mar de estatísticas e julgamentos instantâneos, sinto que corremos o risco de perder o que nos ancora: a delicadeza de perceber o que não se mede.
Não medimos e não enxergamos, mas há quem nos convide a enxergar encantamento justamente naquilo que escapa ao nosso controle. O verdadeiro charme da autenticidade, talvez esteja em perder as estribeiras, em não saber exatamente onde estamos e ainda assim, manter o controle. Será que você me entende? Pois é , penso que a beleza está em aceitar que todos somos, de certo modo, “meio dementes”, e que quando libertamos essa parcela de loucura é o que nos torna vivos, próximos, humanos, sendo quem realmente somos, e não o que desejam ou esperam que sejamos.
Não sei se você já compreendeu, mas só alcançamos a dimensão da ternura quando atravessamos certas perdas. É quando tocamos o luto que entendemos que a gentileza é capaz de nos fazer atar nossos sapatos pela manhã e nos empurrar de volta à vida, apesar do luto.
E o que falar da coragem? Lembro de ouvir certa vez que, heroísmo nos dias atuais pode ser, simplesmente, ser você mesma. Em um mundo que nos impede, desde o nascimento até a morte, de sermos inteiras, verdadeiras, essa escolha penso que é revolucionária. Criatividade é não temer o desconhecido, é caminhar sozinha no escuro e ainda assim dizer o que se pensa desde o raiar do dia!
Percebo que, nesse nosso tempo de agora, diante da “demência”, “heroísmo”, “gentileza” e “criatividade”, o feminismo que precisamos não é o que repele, mas o que sustenta. Um feminismo capaz de se erguer com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo. Que não precisa de grito para existir, mas que também não se cala diante do machismo estrutural que insiste em se repetir em narrativas distorcidas.
Penso nesse feminismo e ao ver ondas de ataques às mulheres e o que foram destinados à primeira-dama da França, ataques feitos inclusive por uma outra mulher. Essa cena me fez perguntar: por que ainda reproduzimos, entre nós, mulheres, o olhar que nos oprime? Por que uma mulher ataca uma outra mulher não por suas ideias, mas pela aparência, pela idade, pelo comportamento, pela vida privada e até com insinuações cruéis sobre sua identidade de gênero? Esse é o mecanismo mais perverso do patriarcado: ele não precisa sempre da voz de um homem para existir; muitas vezes se manifesta em nós mesmas, mulheres, quando deixamos que seus padrões se tornem parte de nós.
O ataque não é singular e não fala apenas da primeira-dama: fala de todas nós mulheres. Fala das vezes em que nos deixamos aprisionar por discursos que nos reduzem e das vezes em que, sem perceber, reforçamos as correntes e prisões de outras mulheres que não puderem ser elas mesmas.
E é por isso que quero ecoar, ao final deste texto com total sentido de reflexão, algo simples e essencial: porque nós, mulheres, precisamos ser rivais? Porque não ser apenas companheiras? Precisamos entender e aprender a sustentar umas às outras, saber que cada força individual é única e é nossa. Só assim desmontaremos, pouco a pouco, a estrutura que insiste em nos dividir, e nos divide!
De que lado da história eu quero estar, de que lado da história você quer estar, de que lado da história nós queremos estar: do eco do machismo ou da delicadeza que sustenta?
Nos vemos no próximo mês. ; )
Lizandra Cruz Monteiro