A inauguração da fábrica da BYD em Camaçari, na última quarta-feira (8), revelou mais do que o início de uma nova era industrial na Bahia: expôs fissuras dentro do Partido dos Trabalhadores no estado.
Durante o evento, que contou com a presença do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do governador Jerônimo Rodrigues, velhos aliados petistas e figuras tradicionais da política baiana ficaram escanteados e sem espaço de fala.
Entre os que permaneceram longe dos holofotes estavam o senador Jaques Wagner (PT), que assistiu à cerimônia de forma discreta, sentado nas fileiras secundárias, sem direito a discurso, um contraste marcante para quem já foi uma das vozes mais influentes do partido no estado. A postura adotada no evento reforçou a leitura de que o PT baiano vive um momento de reconfiguração interna, especialmente diante da possível candidatura do ministro da Casa Civil, Rui Costa, ao Senado, o que contraria os planos do próprio Wagner.
Rui Costa, por sua vez, teve papel de destaque. Falou por mais de 20 minutos e foi aplaudido por ministros, autoridades e empresários. A visibilidade do ministro durante a cerimônia contrastou com a ausência de protagonismo de outros nomes tradicionais da legenda e de partidos aliados.
Deputados como Pastor Isidório (Avante) e Alice Portugal (PCdoB), além dos senadores Otto Alencar e Angelo Coronel (PSD), também foram deixados de lado, assistindo ao evento das últimas filas. O prefeito de Camaçari, Luiz Caetano até discursou como manda o protocolo, mas deputada federal Ivonete Caetano, primeira-dama do município, não teve a participação de destaque, apesar de o evento ocorrer em sua base política.
Segundo informações obtidas pelo Mais Região, o clima nos bastidores foi de tensão, já que teriam ocorrido reuniões reservadas antes e depois do evento para “ajustar o discurso” e definir posições estratégicas. A ausência de diálogo direto de Lula com a imprensa e com representantes locais reforçou a percepção de distanciamento entre a cúpula petista e seus antigos aliados baianos.
Enquanto isso, categorias tradicionalmente apoiadas pelo partido, como caminhoneiros e donos de autoescolas, também não foram mencionadas nos discursos, aumentando o sentimento de exclusão num evento que deveria simbolizar integração e desenvolvimento.
O episódio em Camaçari deixa claro que, além dos avanços industriais, o PT na Bahia enfrenta um momento de reposicionamento político, e nem todos os seus figurões parecem encontrar lugar nesse novo arranjo.