A violência armada na Bahia atingiu níveis críticos entre 2024 e 2025, segundo dados do Instituto Fogo Cruzado. A Região Metropolitana de Salvador (RMS) registrou 1.795 tiroteios apenas em 2024, uma média de cinco confrontos por dia. Em 2025, o cenário se agravou: só no primeiro semestre, o número de baleados cresceu 26% em relação ao mesmo período do ano anterior, com aumento expressivo de mortes durante ações policiais.
Apesar dos números, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) declarou nesta terça-feira (28), durante evento no Centro Administrativo da Bahia (CAB):
“Não, aqui está sob controle no sentido de que nós temos feito as operações planejadas, como fizemos na semana passada e fizemos uma ontem novamente, retirando do circuito drogas, dinheiro e armas.”
No entanto, os dados do próprio Fogo Cruzado contradizem o discurso do governador. Segundo o levantamento, 38% dos tiroteios registrados em 2024 tiveram origem em operações policiais. Além disso, o número de chacinas na RMS,27 episódios com 92 mortos, aponta para um padrão de letalidade crescente, semelhante ao vivenciado no Rio de Janeiro, onde o colapso da segurança pública consolidou-se após anos de confrontos armados em áreas urbanas densamente povoadas.
Enquanto Salvador e sua região metropolitana mantêm um volume quase estável de tiroteios desde 2023 (de 1.804 para 1.795 em 2024), a letalidade aumentou, com mais vítimas em residências e locais públicos.
No Rio de Janeiro, por outro lado, apesar de ainda enfrentar altos índices de violência, houve queda de 8% nos tiroteios em 2024 — reflexo da expansão de programas de monitoramento inteligente e policiamento orientado por dados.
A comparação expõe um contraste preocupante:
Rio de Janeiro e RMS carioca (2024): 2.900 tiroteios, redução de 8%.
Bahia e RMS (2024): 1.795 tiroteios, estabilidade nos números, mas aumento no número de mortos e feridos por ocorrência.
Em cidades como Camaçari, Lauro de Freitas e Simões Filho, a escalada de confrontos e homicídios em 2025 repete o ciclo de violência que transformou o Rio em símbolo nacional de insegurança urbana.
Para especialistas, o estado vive um momento crítico.
“A letalidade policial, as chacinas e o crescimento da violência residencial são sinais de que a estrutura de segurança entrou em colapso tático. Se não houver reformulação urgente da política de segurança, a Bahia pode reproduzir o colapso que o Rio viveu há uma década”, alerta o analista de segurança pública Rafael Ramos, do Observatório de Violência Urbana (OVU).
Governo reage com discurso brando
Apesar do avanço dos indicadores de violência, o governo baiano ainda não apresentou um plano robusto de contenção. Em declarações recentes, Jerônimo Rodrigues reafirmou que a solução passa por ações sociais e não pela repressão.
“O enfrentamento à violência passa pelo diálogo e pela reconstrução do tecido social. Não vamos combater a criminalidade com ódio, mas com humanidade”, afirmou o governador.
Enquanto isso, as estatísticas mostram o oposto: em maio de 2025, a RMS registrou 137 tiroteios, com 122 mortos e 28 feridos, tornando-se o mês mais letal desde o início do monitoramento no estado.
Com índices de violência entre os mais altos do Brasil, a Bahia vive uma crise de segurança que exige resposta imediata. A RMS, principal foco de tiroteios e mortes, torna-se o epicentro dessa escalada. Enquanto discursos simbólicos ou polêmicos ganham destaque, a população espera ação concreta.
Se o governo estadual não assumir rapidamente uma postura de enfrentamento severo, o estado poderá ver uma derrocada gradual da ordem social com o espelho perverso do que ocorreu no Rio de Janeiro.