Há temas que eu preferia não precisar escrever. Mas escrever é um gesto de responsabilidade, um modo de iluminar o que muitos tentam esconder. E dezembro, com toda a sua promessa de luzes, laços e celebrações, também é o mês que mais escancara as cadeiras vazias. As que nem deveriam estar vazias.Esse mês eu preciso falar do ódio contra as mulheres.
O feminicídio não é uma estatística distante, e sim um golpe, uma ferida social que se reabre a cada nova notícia. São mulheres que tinham planos, risadas guardadas para depois, compras de Natal por fazer, sonhos amarrados com fita vermelha. Mulheres que existiam. Mulheres que amavam. Mulheres que não estarão na ceia deste ano porque alguém decidiu que o corpo delas era território de poder, não de vida.
E talvez seja justamente no Natal que a ausência doa mais. Porque dezembro é o mês em que a casa ganha cheiro de comida boa, as árvores ganham os enfeites que nem sempre ficam perfeitamente certos quando pendurados, mas a esperança… essa vai tentar se recompor como quem reorganiza a mesa para caber mais um. Menos as famílias que perderam uma mulher. Para essas famílias, nada se reorganiza tão facilmente.
Nesse Natal, ao ver as luzes piscando, pensarei no brilho destas mulheres que se foram e quanto o brilho do Natal também pode ser um pedido silencioso, para que a gente acorde. Para que a gente olhe para as mulheres ao nosso redor com a atenção que salva e para os homens com a educação que previne. Para que a gente fale sobre limites, respeito, proteção e acolhimento como quem oferece pão fresco e água limpa: sem cerimônia, sem vergonha, sem tabu.
Meu pedido de Natal este ano é simples, mas urgente: que nenhuma mulher precise escolher entre existir e sobreviver. Que nenhuma mulher precise diminuir a própria luz para caber num espaço que não a merece. Que nenhuma família precise arrumar um lugar a menos na mesa de Natal e nem do dia a dia por causa da violência. Que a gente consiga amar com responsabilidade, conviver com gentileza e criar ambientes onde o medo não tenha lugar, nunca!
E se eu puder pedir mais uma coisa, porque no Natal , penso que sempre podemos pedir algo mais, que cada um de nós seja capaz de intervir, apoiar, escutar, estender a mão. Não é preciso mudar o mundo inteiro. Basta mudar o mundo de uma mulher.
No final das contas, é isso que o Natal ensina desde sempre: o renascimento possível. A chance de recomeçar. A esperança que insiste, mesmo quando a realidade tenta apagá-la.
Que este dezembro traga luz às casas que enfrentam o luto.Que traga força às mulheres que ainda precisam esconder hematomas da pele e na alma. E que traga consciência aos que ainda não entenderam que amar nunca é sinônimo de possuir. Porque o Natal é tempo de vida. E nenhuma vida deveria ter seu brilho interrompido.
Feliz Natal!
Nos vemos no ano que vem.
Lizandra Cruz Monteiro