Geral Lizandra Monteiro
O caminho que seguimos e o olhar que aprendemos depois
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05/02/2026 15h29
Por: Keila Abreu Fonte: Lizandra Monteiro
Reprodução

Há um momento da vida em que a gente começa a enxergar o caminho com outros olhos.
Não porque ele tenha mudado,
mas porque nós mudamos.

Hoje, mais madura, consigo reconhecer que caminhei por trilhas que não foram abertas por mim.
E por muito tempo acreditei que esse chão estivesse ali por acaso, firme, disponível, quase óbvio.
Não estava.

Havia mulheres antes de mim.
Mulheres que falaram quando falar era risco.
Que ocuparam espaços quando isso ainda custava caro demais.
Que sustentaram escolhas difíceis para que outras, como eu, como você, pudessem simplesmente caminhar mais leves, mais livres, mais soltas.

E é preciso dizer, com honestidade: nem sempre soube reconhecer isso, e você?
Houve momentos em que confundi juventude com avanço.
Em que julguei mulheres mais velhas como se o tempo tivesse diminuído suas vozes.
Em que pensei, em silêncio, que algumas delas já tinham passado do seu momento.

Hoje entendo: isso é etarismo.
Mesmo quando vem embrulhado em discursos modernos, na pressa pela renovação, na ânsia de romper com tudo o que veio antes.

O que estamos vivendo agora é diferente.
Essa abertura de informação, essas conversas que finalmente encontram espaço, são informações de que em algum momento nem se quer se davam conta de que a informação de fato eram relevante, 
não são exagero, não são moda, não são “mimimi”.

São movimento.
E todo movimento, antes de transformar, incomoda.

Etarismo é essa ideia sutil, e perigosa, de que alguém “já deu o que tinha que dar”
Um julgamento que se apoia apenas na idade. Na minha, de não achar que tenho a idade que já tenho e também nas dos outros.
E não se trata de apontar culpados,
mas de ampliar o olhar.

Estamos vivendo um movimento geracional.
E movimentos geracionais não pedem silêncio.
Pedem escuta.

O caminho só parece óbvio depois que alguém o atravessou antes,
caindo, insistindo, abrindo passagem com o próprio corpo.
Reconhecer isso não diminui o novo.
Ao contrário, fortalece.

Se hoje sinto orgulho do espaço que ocupo, ao lado de tantas mulheres que contribuíram ao longo de sua jornada, é porque alguém abriu essa fresta antes de mim.
Mesmo quando eu não percebi.
Mesmo quando não agradeci.

É desse lugar que falo agora às mulheres mais jovens.
Não como quem aponta o dedo,
mas como quem reconhece que já esteve aí.

Lugar de fala não deveria significar apagamento de quem veio antes.
Nenhuma liberdade nasce sem memória.
Nenhum avanço se sustenta desqualificando a travessia alheia.

O tempo passa para todas nós.
Mas ele não deveria nos colocar em lados opostos.
Ele deveria nos alinhar.
Nos conectar.

Talvez o maior ensinamento deste tempo seja esse:
entender que mulheres mais velhas, mulheres da minha idade
e as mulheres que estamos formando agora
precisam caminhar juntas.

Não para pensar igual.
Mas para sustentar o caminho umas das outras.

Porque só existe perpetuação quando existe vínculo.
Só existe futuro quando há troca.
Só existe avanço real quando uma geração não precisa apagar a outra para existir.

Que sejamos capazes de transformar experiência em legado.
Escuta em continuidade.
E tempo em aliança.

Porque o caminho não termina.
Ele segue, quando é atravessado juntas.

O que uma geração começa, a outra aprofunda.

Nos vemos no próximo mês !
Lizandra Cruz Monteiro