Geral Lizandra Monteiro
O que está acontecendo com os homens jovens?
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02/04/2026 10h44
Por: Keila Abreu Fonte: Lizandra Monteiro
Reprodução/Desconhecida

Olá, tudo bem com você?

No último mês comemoramos o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, que costuma vir acompanhado de homenagens e mensagens de reconhecimento a nós. Mas, às vezes, algumas notícias nos convidam a olhar para essa data com mais reflexão do que celebração.
Uma pesquisa internacional conduzida pela Ipsos, em parceria com o Global Institute for Women's Leadership, trouxe dados que me chamaram atenção e quero compartilhar com vocês. O estudo apresentado ouviu 23 mil pessoas em 29 países, entre eles o Brasil, para entender como diferentes gerações percebem as relações entre homens e mulheres.

Entre os resultados, um contraste curioso aparece quando se observam os homens da chamada geração Z, lembram deles? São aquelas pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2012, ou seja, jovens que ocupam a faixa etária entre 15 e 30 anos de idade. Quase um terço desses jovens acredita que a esposa deveria obedecer ao marido. Esse número cai para 13% entre os homens da geração baby boomers (faixa etária de 60 a 80 anos de idade). Outros 33% dos jovens afirmam que o marido deveria ter a palavra final nas decisões do casal, enquanto entre os mais velhos esse percentual é de apenas 12%. E 24% deles (jovens) acreditam que uma mulher não deveria parecer independente demais.
À primeira, segunda e todas as demais vistas, esses números surpreendem.

Durante muito tempo acreditamos que o avanço das discussões sobre igualdade produziriam gerações naturalmente mais alinhadas com esses valores. Mas a realidade social raramente segue uma linha reta.Diante de dados como esses, surge uma reação quase automática: procurar culpados. E muitas vezes essa busca acaba recaindo sobre nós, as mulheres. E com a culpa, vêm as várias perguntas que já são nossas conhecidas e eu diria quase companheiras:  “Cadê as mães desses meninos?”

“Quem educou esses homens?” “Por que as mulheres não estão formando filhos melhores?” Afinal, somos nós, mulheres, as genitoras e responsáveis por criar esses homens dentro de casa, não é mesmo? Essa lógica parece simples, mas carrega uma armadilha antiga: ela reforça a ideia de que tudo o que diz respeito ao cuidado, à formação emocional e à educação humana seria responsabilidade quase exclusiva nossa, das mulheres. Quando aceitamos esse raciocínio, pena que acabamos reproduzindo exatamente o modelo que desejamos e lutamos superar.

A formação de um homem não acontece apenas dentro de casa, nem depende única e exclusivamente de uma mãe. Ela se dá em um ambiente muito mais amplo: nas referências culturais, nos exemplos masculinos que circulam na sociedade, nas narrativas que ganham força nas redes sociais e nos valores reforçados diariamente na sociedade e no entorno que vivemos.

Há também um elemento importante que merece atenção, muita atenção eu diria! Parte dos homens jovens parece estar reagindo a um mundo que mudou mais rápido do que eles conseguiram acompanhar. Durante séculos, o poder masculino foi sustentado por estruturas muito claras: o homem decidia, a mulher obedecia; o homem ocupava os espaços públicos, a mulher cuidava da casa; o homem tinha autoridade natural sobre a família. Nas últimas dezenas de anos, esse cenário começou a se transformar profundamente.

Nós, mulheres, passamos a ocupar novos espaços, a reivindicar direitos, a questionar papéis que antes pareciam imutáveis. Recuperarmos autonomia, voz e presença. Mas toda mudança também produz desconfortos, e para alguns homens, especialmente os mais jovens, a perda de antigos privilégios pode ser interpretada como uma espécie de injustiça. O que antes era visto como natural, certa autoridade, certo poder, certa centralidade, agora precisa ser negociado. Essa transição nem sempre é simples. Talvez por isso alguns desses jovens expressem ressentimento, insegurança ou até agressividade diante de um mundo em que as regras estão mudando, ou melhor, já mudaram.

Mas há uma reflexão que precisa ser feita com cuidado: nós, mulheres, definitivamente não levamos os homens a esse lugar de frustração. O que está acontecendo é justamente o contrário. Enquanto nós, mulheres,  caminhamos muito nas últimas décadas para recuperar autonomia e dignidade, parte dos homens ainda resiste a sair de um lugar que sempre lhes foi confortável. Existe aí uma mudança necessária que vai além das atitudes individuais. Durante muito tempo fomos levadas a acreditar que o cuidado, seja com a casa, com os filhos, com os doentes, com a vida cotidiana, seria uma característica natural e exclusivamente nosso, das mulheres. Mas cuidado não é genética. Cuidado é aprendizado.

Qualquer pessoa pode aprender a cuidar, a dividir responsabilidades e melhor, a construir relações baseadas em respeito e parceria.
Talvez essa seja uma das transformações mais importantes do nosso tempo. Porque igualdade não significa inverter papéis. Significa compartilhar responsabilidades. E isso exige que homens e mulheres caminhem juntos em direção a um novo modelo de convivência.
A história mostrou que, quando as mulheres avançam, o mundo inteiro muda.

E eu acredito que ser mulher hoje é carregar as marcas de muitas lutas, mas também o orgulho de uma caminhada que não tem volta, não tem retrocesso! E talvez a pergunta que fica, diante de tudo isso, seja simples, mas muito poderosa ao mesmo tempo:
Apesar de tudo, eu tenho orgulho de ser mulher. E você?

Nos vemos nos próximo mês!

Lizandra Cruz Monteiro