Geral Lizandra Monteiro
Dois encontros que mudaram a forma como eu olho a arte
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17/06/2026 11h39 Atualizada há 3 meses atrás
Por: Keila Abreu Fonte: Lizandra Monteiro
Divulgação

No vão do Museu de Arte de São Paulo - MASP, fui atravessada por uma pergunta em um quadro estilo cartaz que não pediu licença.
“Mulheres precisam estar nuas para entrar no museu?”

O cartaz das Guerrilla Girls não é grande, não é solene, não tem moldura dourada, mas chama atenção e tem um impacto que ecoa por toda a exposição. Ele expõe um dado simples e, ao mesmo tempo, desconcertante: mulheres aparecem em abundância nas paredes dos museus, mas, em grande parte, como imagem e não como autoria.

Meses antes, no Palácio dos Bandeirantes, durante a exposição de Tarsila do Amaral, ouvi da guia que eu acompanhava pelo palácio uma observação que ficou comigo: o reconhecimento de Tarsila não foi imediato. Demorou. Foi construído com o tempo, atravessando resistências silenciosas.

Duas visitas. Duas frases. Um mesmo fio condutor.

Volto então ao MASP, às suas salas abertas, aos cavaletes de vidro, à forma como as obras parecem flutuar no espaço. E começo a olhar de novo.

Ali estão mulheres por todos os lados.

Na delicadeza íntima de Rosa e Azul (As Meninas Cahen d’Anvers), de Pierre-Auguste Renoir, a infância feminina é capturada com doçura e rigor técnico.
Em obras como Nu feminino, de Pierre Bonnard, o corpo da mulher surge em cenas íntimas, silenciosas, quase suspensas no tempo, moldado por um olhar de quem a observa.
Em Nu, de Eliseu Visconti, esse mesmo corpo atravessa a tradição acadêmica, reafirmando um padrão que nunca precisou se justificar.
E, mais adiante, o feminino continua a se repetir, exposto, oferecido ao olhar, como em tantas tradições da pintura europeia.

Cobertas ou nuas. Idealizadas ou íntimas. Jovens, belas, etéreas.

Presentes.

Mas, em quantas dessas obras, a assinatura é feminina?

O desconforto não vem da beleza, ela está ali, inegável. Vem da constatação de que, por séculos, o corpo da mulher foi aceito como tema, mas sua voz como artista foi contida, adiada, questionada.

Não era apenas sobre pintar. Era sobre poder pintar. Estudar. Expor sua obra. Ser levada a sério.

O nu feminino é o feminino propriamente dito, por outro lado, nunca precisou pedir permissão.

Ele se encaixava. Era parte de uma tradição. Era celebrado.

Existe algo profundamente simbólico nisso: a mulher como imagem sempre foi central na história da arte; como autora, muitas vezes, marginal.

E então o cartaz volta à memória, não como pergunta isolada, mas como chave de leitura.

Talvez seja por isso que ele tenha me chocado tanto.

Porque ele não acusa uma obra específica, nem um artista em particular. Ele revela um sistema de escolhas que foi sendo naturalizado ao longo do tempo.

E, uma vez visto, não se desvia mais.

A história de Tarsila do Amaral ganha outro peso. Seu reconhecimento tardio deixou de ser exceção curiosa e passou a ser sintoma. Quantas outras produziram com a mesma força e não atravessaram o tempo com a mesma visibilidade?

Caminhar por um museu, depois disso, deixou de ser apenas contemplação.

Virou também revisão de conceito.

Não para diminuir o que está nas paredes, mas para ampliar o que ainda pode estar.

Porque entre o corpo representado e a mão que cria existe uma distância histórica.

Será que a arte, hoje, esteja justamente no movimento de encurtá-lá ? 

Nos vemos no próximo mês!

Lizandra Cruz Monteiro