Geral Lizandra Monteiro
Quando o gosto deixa de ser nosso
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06/07/2026 10h51
Por: Keila Abreu Fonte: Lizandra Monteiro
Ilustrativa

Ando pensando ultimamente sobre uma diferença pequena, quase invisível, entre descobrir algo novo que nos transforma e consumir algo novo porque aprendemos que aquilo diz algo bonito sobre quem podemos ser ou queremos parecer ser. À primeira vista, as duas experiências parecem iguais. Lemos o mesmo livro, frequentamos o mesmo café, escutamos a mesma música. Mas a origem do interesse muda tudo.

Vivemos em um tempo em que o acesso à cultura e à informação é quase ilimitado. Nunca foi tão fácil encontrar referências, conhecer novos autores e informações, explorar diferentes formas de arte e, por que não falar, sobre tudo que se quer saber. Isso é uma conquista real e devemos ser gratos por isso. Mas, junto com essa abundância de informações, surgiu algo que me inquieta: a transformação de gostos em performances.

Cada vez mais, vejo que o valor de uma experiência parece estar menos no que ela produz por dentro de cada um e mais no que comunica para fora de nós. Livros viram objetos de identidade. Viagens viram provas de sofisticação. Hábitos viram símbolos de pertencimento. O que é consumido por cada um passou a funcionar como uma linguagem social, uma forma de anunciar quem se é ou quem gostaríamos de parecer ser.

E o problema começa exatamente aí, quando a representação de ser substitui a experiência real de ser quem se é verdadeiramente.

Quando alguém escolhe um livro, por exemplo, apenas para ser visto como intelectual, o livro perde sua função original. Ou quando alguém adota um estilo de vida porque ele transmite alguma autenticidade, a própria autenticidade já foi comprometida. Quando uma busca por experiências parte do que é reconhecido como interessante e não do que desperta curiosidade genuína, a pessoa deixa de se perguntar se aquilo realmente significa alguma coisa para ela.

A consequência mais profunda não é a superficialidade. É o afastamento gradual de si mesmo.

Quem constrói a própria identidade a partir de sinais externos, só para atrair algo aos outros e não para si, aos poucos pode ir desenvolvendo uma relação frágil com os próprios desejos. Torna-se difícil distinguir o que gosta dos símbolos que está adquirindo. O gosto deixa de ser uma descoberta e passa a ser uma coleção superficial. E essa coleção, com o tempo, cansa, porque não alimenta; de uma hora para outra deixa de satisfazer, porque não é real.

Isso gera uma sensação silenciosa de vazio que muita gente conhece, mesmo sem saber nomear. É possível ter todos os símbolos associados a uma vida interessante e, ainda assim, sentir que falta alguma coisa. E falta. Porque símbolos não substituem experiências com satisfação real. Reconhecimento não substitui significado. Aparência não substitui vivência.

Existe um efeito coletivo nisso tudo. Quando milhões de pessoas recebem as mesmas recomendações, seguem os mesmos perfis e consomem os mesmos conteúdos, a diversidade cultural se estreita, mesmo que a impressão seja de muita pluralidade. As diferenças se tornam estéticas enquanto as referências permanecem as mesmas.

Nunca se valorizou tanto a individualidade e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta pressão para performá-la através de códigos já estabelecidos por outras pessoas.

Isso não significa que compartilhar gostos seja um problema. Nenhuma identidade se constrói sozinha. Somos influenciados por amigos, por livros, por filmes, por professores e pelas culturas das quais fazemos parte. O problema não está na influência ou na referência. Está na falta de reflexão sobre elas, em compreender o efeito que exercem sobre nós.

A pergunta mais importante não é se algo é popular, sofisticado ou admirado. A pergunta é outra, mais simples e muito mais difícil: isso realmente ressoa em mim? Faz sentido e me satisfaz quando consigo conquistá-lo?

Quando existe ressonância verdadeira, uma experiência nos modifica. Ela amplia a percepção, desafia certezas e desperta algo que é genuinamente nosso. Quando isso não acontece, a experiência permanece apenas na superfície: mais um elemento de uma identidade cuidadosamente montada para os olhos dos outros, ou para transmitir uma imagem de quem gostaríamos de ser. E isso não se sustenta.

Talvez a autenticidade não esteja em ser completamente original, porque isso é impossível para qualquer ser humano. Talvez ela esteja na honestidade de reconhecer o que nos toca de verdade, mesmo quando isso não gera admiração, não produz status e não se encaixa em nenhuma tendência do momento.

No fim, a personalidade não é formada pelas referências que acumulamos. É formada pelas experiências que realmente nos atravessam. E nenhum símbolo do mundo consegue substituir esse encontro.

Nos conhecer de verdade e saber o que realmente nos satisfaz, nos dias de hoje, é de fato descobrir algo novo — e que nos transforma.

Nos vemos no próximo mês!

Lizandra Cruz Monteiro