O técnico Carlo Ancelotti confirmou nesta quarta-feira (29) o encerramento do ciclo de Neymar, Casemiro e Danilo na Seleção Brasileira após a eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo. Em entrevista ao ge, 24 dias depois da derrota, o treinador italiano fez uma avaliação do primeiro ano de trabalho, admitiu que errou nas substituições realizadas contra os noruegueses, afirmou que pretende promover uma renovação no elenco e definiu a Copa América de 2028 como o primeiro objetivo do novo ciclo.
Ancelotti afirmou que a eliminação teve impacto pessoal e que utilizou as semanas seguintes para descansar, refletir sobre o resultado e discutir com a comissão técnica e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) os próximos passos. “Depois de uma derrota, acho que é importante tomar um tempo para pensar, para tentar recuperar, para tentar olhar com atenção o que aconteceu. E olhar com atenção o futuro. Por isso, depois da derrota eu preferi ir ao lugar onde está a minha família para descansar, recuperar, pensar. E compartilhar ideias com a comissão e com a CBF para tentar melhorar o que aconteceu e projetar o novo grupo no futuro.”
Segundo o treinador, o período foi marcado pela tristeza e pela decepção com a eliminação. “Não foi um período fácil, por causa da tristeza, da decepção da derrota. É uma derrota diferente, porque é uma derrota em uma Copa do Mundo. Você não tem tempo como em um clube de reagir, de recuperar. E a derrota fica dentro mais tempo.” Ancelotti disse que a derrota já foi assimilada e avaliou que o Brasil deveria ter avançado mais na competição.
Sobre a renovação da Seleção, o técnico afirmou que a Copa do Mundo encerrou uma geração de jogadores importantes. “Acho que com essa Copa do Mundo termina uma geração de jogadores muito importantes. Começando por Neymar. Passando por Danilo, Casemiro, todos esses jogadores que na Copa do Mundo tinham mais de 30 anos.” Ele acrescentou que o objetivo é identificar novos jogadores que possam ser competitivos já na Copa América de 2028, sem esperar apenas pela Copa do Mundo de 2030.
Ancelotti também afirmou que a renovação não será completa e citou Marquinhos como um dos jogadores experientes que podem permanecer. “Não vou dizer que vou mudar todos os 26. Vamos manter alguns jogadores importantes, que podem seguir com a linha de trabalho, como o Marquinhos, para dizer um nome. Acho que é importante que fique para dar um sinal de continuidade ao trabalho. Mas a ideia é mudar, botar uma nova geração.”
Questionado especificamente sobre Neymar, Casemiro e Danilo, Ancelotti afirmou que os amistosos do próximo ano serão utilizados para observar jogadores menos conhecidos. O treinador disse que pretende avaliar os novos talentos e acompanhar a evolução deles em conjunto com os clubes. Sobre os três veteranos, afirmou que já conversou com alguns jogadores após a Copa do Mundo e que Neymar já havia declarado que encerrou sua trajetória na Seleção.
O treinador também confirmou que a Copa América de 2028 será o primeiro objetivo do novo ciclo. “O primeiro objetivo não vai ser a Copa do Mundo 2030, o primeiro objetivo vai ser a Copa América, tentaremos ganhar a Copa América em 2028.” Para Ancelotti, o período de quatro anos permite distribuir a pressão e trabalhar na renovação do grupo.
Ao avaliar o estilo de jogo da Seleção, Ancelotti afirmou que a equipe deve atuar de acordo com as características dos jogadores disponíveis. Ele citou Vinicius Junior, Endrick, Estêvão e Raphinha como atletas que favorecem um jogo mais vertical, em vez de uma proposta baseada na posse de bola. Segundo o treinador, a chegada de novos meio-campistas de qualidade poderá permitir uma mudança nessa característica.
Ancelotti também afirmou que pretende observar novos goleiros, embora tenha destacado as qualidades de Alisson e Ederson. “A ideia é fazer uma avaliação muito atenta dos novos goleiros.”
Sobre a derrota para a Noruega, o técnico admitiu que errou ao modificar a estrutura da equipe após a parada para hidratação no segundo tempo. Segundo ele, a equipe estava bem posicionada até aquele momento e havia criado oportunidades para marcar, incluindo um pênalti e uma chance com Endrick. “A autocrítica que eu posso fazer, que eu fiz depois do jogo, é que eu mudei a estrutura do time depois da parada para hidratação e aí perdemos o controle do jogo.”
Ancelotti explicou que a entrada de Neymar e as alterações realizadas no setor ofensivo modificaram a estrutura da equipe. “Acho que ali mudou algo no time. Perdemos um pouco o controle pelo lado. Com a entrada do Neymar, eu pensava em retomar o controle do jogo. Botar mais qualidade na frente para ganhar o jogo. Isso é parte de uma decisão. Você tem que tomar uma decisão em um jogo eliminatório. É como contra o Japão. Às vezes as decisões são corretas porque o resultado te premia. Às vezes as decisões são muito ruins porque o resultado não te premia.”
O treinador afirmou ainda que a escolha pela entrada de Neymar não foi motivada pela pressão popular. “Não. Eu nunca vou tomar uma decisão por causa de uma ideia popular. Vou tomar uma decisão pensando que pode ajudar o time a ganhar o jogo.”
Ancelotti avaliou que a eliminação para a Noruega não deve ser utilizada isoladamente para analisar todo o trabalho realizado durante o primeiro ano. Ele citou oito lesões ocorridas entre março e junho, incluindo Militão, Rodrygo e Estêvão, como fatores que alteraram a estrutura que estava sendo preparada para a Copa. O técnico afirmou que considera correta a avaliação que levou à escolha dos 26 jogadores convocados para o Mundial, embora tenha reconhecido posteriormente que algumas decisões podem ser consideradas erros.
Sobre Luiz Henrique, que teve poucos minutos durante a Copa, Ancelotti afirmou que o jogador terá futuro na Seleção, mas explicou que ele é um atleta específico. Segundo o técnico, quando Raphinha se lesionou, a escolha ficou entre Luiz Henrique e Rayan, que havia tido boas atuações contra Haiti, Escócia e Japão, o que reduziu as oportunidades para Luiz Henrique.
O treinador também falou sobre a situação física de Neymar antes da Copa. Segundo Ancelotti, inicialmente o Santos havia informado que o jogador teria condição de treinar em 27 de maio, mas exames realizados posteriormente na Seleção indicaram que ele precisaria de aproximadamente um mês para estar em campo. “Foi uma pena, porque Neymar não teve a possibilidade de se preparar como os outros. Mas nunca pensamos em trocar Neymar por isso, porque ele tinha condição de ficar bem, como estava na partida contra a Noruega.”
Questionado se a situação havia prejudicado outro jogador que poderia estar pronto para a primeira partida, Ancelotti afirmou que, até 27 de maio, a questão era responsabilidade do Santos e que, após os exames, a avaliação era de que Neymar não estaria pronto para o primeiro jogo, mas poderia disputar a Copa. “No fim, foi uma decisão correta, porque o Neymar se comportou muito bem.”
O treinador afirmou que o Brasil precisa ampliar a integração com as categorias de base e os clubes para acompanhar a formação dos novos jogadores. “A verdade é que o Brasil sempre vai formar talentos e depois eles têm que ser acompanhados.” Ancelotti disse que o ideal seria que os jogadores permanecessem mais tempo no futebol brasileiro para evoluir antes de chegar à Europa e defendeu uma relação mais próxima entre Seleção e clubes.
Entre os jovens que já chamaram sua atenção, o técnico citou Estêvão, Rayan, Endrick e Vitor Reis. Também mencionou goleiros que atuam no Campeonato Brasileiro e podem ser avaliados para a Seleção. Ancelotti afirmou que a comissão técnica pretende acompanhar as categorias sub-15, sub-17 e sub-20, considerando esse trabalho importante para a preparação para os Jogos Olímpicos e para a Copa do Mundo de 2030.
O treinador também comentou a decisão de permanecer no comando da Seleção Brasileira após ter sido procurado pela Federação Italiana de Futebol. Segundo ele, houve contato da entidade, mas a decisão não envolveu contrato. “Simplesmente teve contato da federação, mas não é um problema de contrato, é de compromisso. Eu tenho compromisso com o Brasil não por ter assinado o contrato. Tenho compromisso pelo ano que passei aqui, fui muito bem recebido e não quero cortar esse compromisso. Quero seguir trabalhando e seguir com a Seleção.”
Ancelotti afirmou ainda que vive no Rio de Janeiro, onde é residente fiscal, embora mantenha uma casa no Canadá e passe alguns períodos no país. O técnico também citou Trancoso, na Bahia, entre os locais brasileiros pelos quais passou e disse gostar do país.
Ao falar sobre a pressão em torno da Seleção, Ancelotti afirmou que a relação do brasileiro com o futebol torna as derrotas mais impactantes. Para o treinador, a derrota para a Noruega deve servir como ponto de partida para o novo ciclo. Sobre a possibilidade de o Brasil voltar a disputar títulos, afirmou: “Porque temos ferramentas a nível técnico, metodológico e competência para estar entre os melhores do mundo.”;..;