As apostas online movimentaram R$ 220,6 bilhões em depósitos nas plataformas autorizadas a operar em nível federal no Brasil em 2025, dos quais R$ 36,9 bilhões ficaram como receita das casas de apostas. Os dados preliminares são do Ministério da Fazenda e foram obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. No período, 25 milhões de brasileiros registraram apostas, enquanto a estimativa de outro levantamento, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), aponta que a perda líquida das famílias com apostas pode ter alcançado R$ 62,5 bilhões.
Segundo os dados da Fazenda, os R$ 220,6 bilhões depositados pelos apostadores nas plataformas autorizadas foram distribuídos entre a receita das empresas e os valores devolvidos aos usuários. Desse total, R$ 183,7 bilhões foram destinados ao pagamento de prêmios e à oferta de bônus sacáveis, que são valores promocionais disponibilizados pelas plataformas e que podem ser retirados pelos usuários. A receita das casas correspondeu a 16,7% do total depositado.
A movimentação variou ao longo do ano. Outubro registrou o maior volume de depósitos, período que coincidiu com a reta final do Campeonato Brasileiro e com as fases eliminatórias da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana. Naquele mês, 10,82 milhões de pessoas realizaram apostas, acima da média mensal de 9,25 milhões registrada em 2025. No acumulado do ano, foram 25 milhões de apostadores.
Considerando o saldo de R$ 36,9 bilhões registrado pelo Ministério da Fazenda e a quantidade de 25 milhões de apostadores, a média calculada sobre o total de pessoas que apostaram ao longo do ano seria de aproximadamente R$ 1.476 por apostador. O valor corresponde a cerca de 97% do salário mínimo vigente em 2025, de R$ 1.518. A média, contudo, não significa que cada apostador tenha perdido exatamente esse montante, pois considera a divisão do saldo agregado pelo total de pessoas que registraram apostas.
A divulgação dos dados da Fazenda é inédita e ainda tem caráter preliminar. As informações são acompanhadas por meio do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), utilizado pelo Ministério da Fazenda para monitorar o mercado regulado. Os números abrangem as empresas autorizadas a operar em âmbito federal e, por isso, não representam necessariamente todo o mercado brasileiro de apostas, especialmente diante da existência de plataformas que atuam de forma clandestina.
A receita de R$ 36,9 bilhões equivale a 16,7% dos depósitos registrados nas plataformas autorizadas. O percentual supera a retenção máxima de 15% mencionada nas regras do setor e também fica acima da taxa de 7% citada anteriormente por representantes das empresas de apostas. A diferença está relacionada à forma de cálculo da receita das plataformas e não deve ser interpretada diretamente como uma taxa de perda individual dos apostadores.
Pelas regras de distribuição vigentes em 2025, 88% do faturamento das apostas permaneceu com as empresas e 12% foi destinado à União e a outras áreas beneficiadas pela regulamentação, incluindo grupos e entidades que recebem repasses. A parcela destinada ao poder público e aos demais beneficiários está prevista para aumentar para 13% em 2026 e chegar a 15% em 2028. Além dessas destinações, as empresas estão sujeitas a impostos federais, estaduais e municipais.
Os números do Ministério da Fazenda são inferiores aos apresentados pelo Comsefaz. Em levantamento divulgado neste ano, o comitê estimou que as plataformas de apostas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix durante 2025. O estudo foi elaborado em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), com base em informações do Banco Central e das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae).
De acordo com o Comsefaz, a diferença entre o dinheiro enviado pelos usuários às plataformas e o valor devolvido em prêmios resultou em uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões para as famílias brasileiras em 2025. O montante corresponde a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. O levantamento considera o conjunto das transações relacionadas às apostas e, portanto, não se limita às plataformas autorizadas monitoradas pelo Ministério da Fazenda.
A diferença entre os dois levantamentos é de R$ 25,6 bilhões. Parte desse valor pode estar associada à atuação de plataformas não autorizadas. Estudo da consultoria LCA, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), estima que operadores clandestinos representem entre 41% e 51% do mercado brasileiro de apostas. Os levantamentos, porém, utilizam metodologias diferentes e não são diretamente comparáveis.
O boletim do Comsefaz também analisou o comportamento das transferências via Pix entre outubro de 2024 e março de 2026. A partir de uma simulação estatística, os pesquisadores estimaram um volume adicional médio de R$ 24,1 bilhões por mês relacionado às apostas. No acumulado de 2025, as transações associadas ao setor chegaram aos R$ 350,97 bilhões identificados no estudo.
O levantamento apontou ainda uma desaceleração no crescimento das transações após a restrição de apostas para beneficiários do Bolsa Família, implementada em outubro de 2025. Segundo os pesquisadores, o comportamento observado indica participação relevante de famílias de menor renda no mercado de apostas. O estudo relaciona esse cenário aos níveis de endividamento e comprometimento da renda das famílias, mas ressalta que os resultados baseados em simulações estatísticas não estabelecem, isoladamente, uma relação de causa e efeito.
A diferença entre os dados oficiais das plataformas autorizadas e a estimativa mais ampla do Comsefaz mostra o impacto da expansão do mercado de apostas no país no primeiro ano completo de funcionamento sob o modelo regulado. Enquanto o Ministério da Fazenda contabilizou R$ 220,6 bilhões em depósitos nas empresas autorizadas e R$ 36,9 bilhões de receita, o levantamento baseado em transferências via Pix identificou movimentação de R$ 350,97 bilhões e perda líquida de R$ 62,5 bilhões para as famílias. Os números seguem sujeitos a atualizações e refletem metodologias distintas de medição do setor.