Geral Contaminação
Justiça Federal bloqueia R$ 387,6 milhões em bens de empresas por danos ambientais em praia de São Tomé de Paripe
Medida foi solicitada pela Polícia Federal durante investigação sobre contaminação do solo, das águas subterrâneas, da faixa de praia e do ambiente marinho
20/08/2026 23h01
Por: Luana Velloso Fonte: G1
Foto: Arquivo pessoal

A Justiça Federal da Bahia determinou a indisponibilidade de bens imóveis de empresas investigadas por danos ambientais na região da Praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador. A medida, solicitada pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Mar Vivo, alcança aproximadamente R$ 387,6 milhões e busca assegurar recursos para uma eventual reparação dos danos identificados na área. A decisão foi proferida pela 17ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária da Bahia.

A investigação apura a contaminação do solo, das águas subterrâneas, da faixa de praia e do ambiente marinho por substâncias potencialmente poluentes, entre elas compostos nitrogenados e metais pesados. Segundo a Polícia Federal, as apurações começaram após denúncias de moradores e fiscalizações realizadas por órgãos ambientais, que identificaram indícios de degradação na área próxima ao terminal portuário localizado em São Tomé de Paripe.

A área apresenta sinais de contaminação contínua, com registros de líquidos de coloração azulada, amarelada e esverdeada na faixa de areia. Os impactos também atingem o ecossistema costeiro e atividades tradicionais desenvolvidas pela população local, como a pesca artesanal e a mariscagem. Exames periciais, análises laboratoriais e diligências de campo identificaram níveis elevados de substâncias considerados incompatíveis com os padrões ambientais aplicáveis, além de elementos que apontam para a existência de uma fonte ativa de contaminação.

Os laudos produzidos durante a investigação também apontaram riscos à biodiversidade, à saúde coletiva e à sustentabilidade ambiental da região. De acordo com o Laudo Pericial Criminal Federal, a recuperação da área exige medidas de contenção, remediação e recuperação ambiental, com custo mínimo estimado em R$ 387,6 milhões. O valor corresponde justamente à estimativa necessária para a execução dessas ações.

Ao analisar o pedido da Polícia Federal, a Justiça Federal reconheceu a existência de indícios suficientes da ocorrência de danos ambientais e entendeu ser necessário preservar patrimônio para garantir a efetividade de uma eventual reparação futura. Com isso, foi determinada a indisponibilidade dos imóveis das empresas investigadas por meio da Central Nacional de Indisponibilidade de Bens (CNIB).

A Polícia Federal informou que a investigação continua com novas diligências para esclarecer a origem da contaminação, a extensão dos impactos e as responsabilidades relacionadas ao caso. Conforme os elementos reunidos na apuração, os investigados ainda podem responder por danos a unidades de conservação e por poluição com potencial de provocar prejuízos à saúde ou ao meio ambiente, além de outras infrações que eventualmente sejam identificadas.

Os sinais de contaminação passaram a ser observados ao menos desde fevereiro, com manchas azuis e amarelas na faixa de areia e na água do mar. Em maio, análises confirmaram a presença de substâncias como cobre e nitrato. A praia permanece em situação de emergência, com recomendação para que a população evite o banho e a pesca na área.

A medida judicial ocorre em meio a uma série de ações relacionadas à contaminação. Em junho, a Prefeitura de Salvador declarou situação de emergência nas áreas litorâneas de São Tomé de Paripe afetadas pelo derramamento de produtos químicos em ambientes lacustre, fluvial, marinho e em aquíferos. Em julho, a situação também mobilizou órgãos federais diante dos impactos sobre moradores e atividades tradicionais da comunidade.

Em manifestação enviada ao g1, a Gerdau afirmou que acompanha o caso e mantém diálogo com autoridades e órgãos competentes para buscar uma solução social e técnico-ambiental para a região. A empresa declarou ainda que não opera no local desde 2022, que não possui histórico de ocorrências semelhantes na região e que pretende contribuir para soluções que atendam à população afetada e restabeleçam a normalidade.

A Intermarítima, por sua vez, afirmou que acompanha as investigações e continua prestando as informações solicitadas pelos órgãos responsáveis. A empresa declarou que estudos realizados desde o início das apurações indicaram, de forma preliminar, que a contaminação teria origem anterior ao período atual, quando o terminal era operado pela Gerdau. A empresa também afirmou confiar na conclusão das investigações para esclarecer definitivamente a origem do problema e manifestou solidariedade aos moradores de São Tomé de Paripe.

A apuração permanece em andamento, enquanto a indisponibilidade dos bens busca garantir recursos para uma eventual recuperação da área afetada pelos danos ambientais.