A promessa de levar o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) até Camaçari voltou ao centro do debate político e já começa sob um trilho conhecido: o da desconfiança. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) incluiu em seu Plano de Governo a expansão do sistema como uma das apostas para integrar Salvador e a Região Metropolitana, com a proposta de ampliar o acesso da população a serviços, empregos e novas oportunidades. A meta anunciada é avançar com o projeto e dar início às obras em um eventual novo mandato.
O problema para o governador é que, em Camaçari, a promessa não chega em terreno virgem. O município já ouviu anúncios semelhantes em governos anteriores do mesmo grupo político. Uma promessa de implantação do VLT feita ainda no período eleitoral de 2018 voltou a circular nas redes sociais após novos anúncios sobre a possibilidade de o equipamento chegar à cidade, alimentando a crítica de que o projeto ressurge sempre que o calendário eleitoral se aproxima.
E os comentários foram imediatos. “Todo ano eleitoral os golpes se renovam...”, escreveu um internauta. Outro ironizou: “Não sei se pior é eles que metem ou quem acredita”. A reação revela um desafio que vai além de apresentar um novo projeto: Jerônimo terá de convencer uma população que já aprendeu a receber grandes anúncios com um pé atrás.
A principal comparação feita pelos próprios críticos é com a Ponte Salvador–Itaparica, projeto anunciado há anos, atravessado por mudanças de cronograma, renegociação contratual e sucessivos adiamentos. O empreendimento, contratado inicialmente em 2020, teve seu planejamento redefinido após um termo aditivo em 2025. Em 2026, começaram as etapas de implantação dos canteiros e da plataforma de apoio, enquanto a conclusão do sistema está prevista para 2031. Ou seja: a ponte deixou a fase exclusiva de promessa, mas a longa distância entre o anúncio inicial e a execução virou combustível para a desconfiança em torno de novas megasobras.
É justamente nesse ambiente que a promessa do VLT ganha um peso político ainda maior. Camaçari foi um dos principais redutos de ACM Neto na eleição para governador em 2022. No primeiro turno, o então candidato do União Brasil recebeu 50,25% dos votos válidos no município, contra 40,30% de Jerônimo. No segundo turno, a vantagem foi ainda maior: Neto chegou a 57,41%, enquanto o petista obteve 42,59%.
Por isso, nos bastidores da disputa de 2026, a proposta de mobilidade também ganha leitura eleitoral. Recuperar terreno em Camaçari e reduzir a vantagem histórica de ACM Neto na cidade pode ser uma das missões estratégicas do grupo petista. Com um prefeito do PT, um polo industrial em expansão e a BYD transformando o município em vitrine da nova indústria, a promessa de um grande investimento em mobilidade tem potencial para ser usada como símbolo de desenvolvimento.
Mas entre o anúncio e o primeiro trilho existe uma distância que Jerônimo ainda terá de percorrer. Depois de anos ouvindo promessas sobre VLT e acompanhando a demorada trajetória da Ponte Salvador–Itaparica, parte da população de Camaçari parece ter adotado uma regra simples: desta vez, antes de comemorar, quer ver a obra sair do papel.