Geral Economia
Habib’s entra em recuperação judicial em meio à escalada da crise empresarial no Brasil
Grupo Gennius, controlador do Habib’s, declarou dívida de R$ 265,2 milhões; cenário nacional já soma mais de 6,3 mil empresas em recuperação judicial
26/08/2026 16h55
Por: Gabriel Seixas Fonte: Mais Região
Reprodução/Gazeta do Povo/Daniel Castellano

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial na segunda-feira (24), em São Paulo, com uma dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A decisão favorável foi proferida pelo juiz Jomar Juarez Amorim, que nomeou a KPMG como administradora judicial do processo.

Segundo informações apresentadas no processo, a crise financeira do grupo foi agravada pelos efeitos da pandemia de Covid-19, pelas mudanças provocadas pelo crescimento das plataformas de delivery e pelo aumento do custo das dívidas em um cenário de juros elevados. O grupo reúne 178 pessoas jurídicas no pedido de recuperação, incluindo 119 lojas Habib’s, 26 unidades Ragazzo e seis churrascarias Tendall.

A recuperação judicial permite que a empresa suspenda determinadas cobranças e negocie suas dívidas com credores enquanto mantém as atividades. No caso do Habib’s, a Justiça suspendeu ações de execução contra o grupo e determinou que credores não interrompam contratos em razão do pedido. A empresa terá 60 dias para apresentar um plano de reestruturação.

O caso chama atenção porque acontece em meio a um movimento mais amplo de deterioração da saúde financeira das empresas brasileiras. Levantamento da consultoria RGF aponta que o número de empresas em recuperação judicial saltou de 3.823 no segundo trimestre de 2023 para 6.341 no segundo trimestre de 2026, uma alta de 65,8%. O agronegócio lidera o número de casos, seguido por transporte e logística e pelo varejo.

Os dados da Serasa Experian também mostram que a pressão vem de antes. Em 2025, foram registrados 977 processos de recuperação judicial no país, o maior número desde 2016, envolvendo 2.466 empresas — recorde da série histórica da companhia.

O cenário é explicado, principalmente, pela combinação de juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos e desaceleração da atividade econômica. A Selic permanece em 14% ao ano, encarecendo empréstimos e dificultando a chamada rolagem das dívidas, quando empresas precisam contratar novos financiamentos para honrar compromissos anteriores.

O problema não fica restrito às empresas que entram em recuperação judicial. Quando uma companhia de grande porte enfrenta dificuldades, o impacto pode alcançar fornecedores, bancos, trabalhadores, consumidores e toda a cadeia produtiva. O atraso ou a renegociação de pagamentos pode reduzir o caixa de pequenas empresas fornecedoras, enquanto a necessidade de cortar custos pode afetar investimentos e empregos.

Por outro lado, a recuperação judicial não significa necessariamente falência. O mecanismo foi criado justamente para permitir que empresas economicamente viáveis reorganizem suas dívidas, preservem empregos e continuem funcionando. O desafio está em saber se a reestruturação financeira será suficiente para recuperar a capacidade de geração de receita e competitividade.

Para a Serasa Experian, a recuperação judicial pode ajudar a resolver problemas relacionados ao balanço financeiro, mas não corrige, sozinha, problemas estruturais de um negócio que perdeu mercado, competitividade ou capacidade de gerar valor.

O aumento dos pedidos, portanto, funciona como um sinal de alerta para a economia brasileira. Quanto maior o número de empresas pressionadas por dívidas, maior tende a ser a preocupação com crédito, investimentos, empregos e a capacidade de fornecedores e consumidores de manterem o ciclo econômico funcionando.