Pojuca Agosto de 1983
Tragédia do trem em Pojuca que deixou 99 mortos completa 43 anos nesta segunda (31)
Descarrilamento de composição carregada de gasolina e diesel provocou explosões e incêndio na Rua da Piedade, deixando dezenas de feridos e transformando a história do município
30/08/2026 10h19 Atualizada há 3 semanas atrás
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
Fotos: Cedoc A TARDE

Há 43 anos, um descarrilamento seguido de explosões transformava a Rua da Piedade, em Pojuca, em cenário de uma das maiores tragédias da história da Bahia. O incêndio, ocorrido em 31 de agosto de 1983, matou 99 pessoas e deixou dezenas de feridos. A tragédia começou pela manhã, quando três vagões de uma composição da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA), carregados de gasolina e óleo diesel, descarrilaram na área urbana e passaram a liberar combustível nas proximidades das residências.

A composição era formada por uma locomotiva e 22 vagões-tanque e havia partido da Refinaria Landulpho Alves, em São Francisco do Conde, com destino ao Terminal Riachuelo, em Laranjeiras, Sergipe. Os três vagões que tombaram transportavam aproximadamente 135 mil litros de combustíveis. O acidente ocorreu próximo ao cemitério de Pojuca, na área urbana, e o combustível começou a se espalhar pelo entorno da linha férrea. Registros jornalísticos e pesquisas sobre o episódio apontam que as condições da ferrovia, com dormentes deteriorados, parafusos frouxos e componentes enferrujados, estavam entre os fatores que antecederam o acidente.

O vazamento atraiu moradores para a área. Sem conhecimento sobre o risco provocado pela presença de grande quantidade de combustível, crianças, adolescentes e adultos passaram a recolher gasolina e diesel em panelas, baldes, galões, caldeirões e outros recipientes. Parte do material era levada para as casas, enquanto outra quantidade era destinada à venda. A movimentação também atraiu moradores de municípios vizinhos, que chegaram a Pojuca para abastecer veículos.

A concentração de pessoas aumentou durante a manhã. Segundo registros da época reunidos em pesquisas posteriores, cerca de duas mil pessoas estavam nas proximidades dos vagões por volta das 10h. O destacamento policial local contava com apenas dez soldados, número insuficiente para retirar a população da área. O isolamento foi realizado somente no fim da manhã e ficou restrito inicialmente a uma área próxima aos vagões.

Durante o dia, funcionários da RFFSA trabalharam na retirada do combustível dos tanques. A operação contou com caminhões enviados pela Petrobras e equipamentos para transferência da carga. Mesmo com a movimentação para retirar o combustível, moradores continuaram próximos ao local.

O risco aumentou com a permanência do combustível derramado no solo e a concentração de vapores inflamáveis. O Polo Petroquímico de Camaçari também foi acionado para auxiliar nas medidas de contenção. A área, porém, permaneceu ocupada durante boa parte do dia.

Por volta das 20h30, aproximadamente 13 horas depois do descarrilamento, ocorreram as explosões. O fogo se espalhou pela Rua da Piedade e atingiu imóveis próximos à linha férrea. Três vagões explodiram, e as chamas alcançaram pessoas que permaneciam na região. Mais de 30 vítimas morreram carbonizadas no local, enquanto outras sofreram queimaduras graves. O número de mortos chegou a 99.

O atendimento às vítimas mobilizou a estrutura de saúde de Pojuca e hospitais de Salvador. A unidade de saúde do município não tinha capacidade para receber a quantidade de pessoas atingidas, e pacientes com queimaduras foram transportados para a capital em ambulâncias e outros veículos. Registros sobre o episódio apontam cerca de 100 feridos, enquanto reportagens posteriores apresentam números diferentes, entre eles 100 e 120. Estudos acadêmicos sobre acidentes envolvendo cargas perigosas também registram oficialmente 99 mortos e 100 feridos.

A tragédia também deixou dezenas de imóveis destruídos ou danificados pelo fogo. Famílias que perderam suas casas foram posteriormente transferidas para o bairro Inocoop, onde a RFFSA iniciou a entrega de escrituras de imóveis. Também foram pagas indenizações às famílias atingidas. Segundo levantamento publicado pelo A TARDE, os valores variaram entre Cr$ 900 mil e Cr$ 2,4 milhões, equivalentes, na conversão apresentada pela reportagem, a cerca de R$ 3,2 mil e R$ 8,7 mil em valores atuais.

As circunstâncias do acidente foram alvo de investigações. Entre as hipóteses levantadas para explicar o início do incêndio estavam uma centelha provocada pelo motor da bomba utilizada na transferência do combustível, uma eventual ação durante os trabalhos de recolocação dos trilhos e outras fontes de ignição próximas à área contaminada. Não houve, contudo, uma conclusão única que estabelecesse de forma definitiva a origem da explosão.

A RFFSA realizou uma investigação interna e, posteriormente, um boletim de serviço registrou punições administrativas contra nove funcionários relacionados ao acidente. Entre eles estavam o superintendente regional Walter Ged, punido com repreensão; o chefe do Departamento Regional de Segurança Empresarial, José Ribeiro de Carvalho, demitido; o engenheiro Paulo Horta, suspenso por dez dias; o maquinista especial Deraldo José do Nascimento, suspenso por 20 dias; e outros quatro engenheiros que receberam advertências.

A Petrobras, responsável pela origem da carga, sustentou que sua responsabilidade terminava no momento em que o combustível era colocado nos tanques do trem e a composição iniciava o deslocamento. A empresa atribuiu ao transportador a responsabilidade pelo carregamento durante a viagem. A RFFSA, por sua vez, resistiu inicialmente a assumir sozinha a responsabilidade pelo episódio.

A ação penal relacionada à tragédia chegou à Justiça da Comarca de Catu em janeiro de 1985, mas não teve andamento posterior. O processo acabou prescrevendo e foi arquivado definitivamente em novembro de 1994. Quase 43 anos depois, portanto, não houve responsabilização criminal pelas 99 mortes.