A Justiça Eleitoral determinou medidas cautelares de proteção em favor da jornalista e candidata a deputada federal Josiane Desidério Mota, conhecida como Josi da Rádio (PSDB), após denúncias de ameaças e perseguição relacionadas à sua atuação política em Coração de Maria, no centro-norte da Bahia. A decisão foi assinada pelo juiz eleitoral Tiago Lima Selau, da 130ª Zona Eleitoral de Coração de Maria, após manifestação favorável do Ministério Público Eleitoral. O magistrado considerou haver indícios suficientes de autoria e materialidade das denúncias, além de risco à integridade física e psicológica da candidata.
Segundo a decisão, Josi passou a sofrer ataques sistemáticos e coordenados após anunciar, em março deste ano, sua candidatura à Câmara dos Deputados. As manifestações teriam ocorrido principalmente em um grupo de mensagens do WhatsApp e foram enquadradas no processo como possível violência política de gênero. Os citados são Alexandre de Oliveira Figueredo Borges, conhecido como Alexandre Bronca, assessor especial do prefeito de Coração de Maria, Kley Carneiro Lima (Avante), e Sérgio Luís Pereira Rocha, chefe de tributos da prefeitura. Conforme os autos, os dois teriam utilizado um grupo de WhatsApp para disseminar ofensas e ameaças contra a jornalista.
Na fundamentação da decisão, o juiz menciona mensagens com referências a armas de grosso calibre e expressões consideradas ameaçadoras, além de relatos de intimidação presencial. Ainda segundo o processo, Sérgio Luís Pereira Rocha teria monitorado ostensivamente Josi em Coração de Maria, em abril deste ano. Para a Justiça Eleitoral, as ameaças ultrapassaram os limites do debate político e atingiram a integridade física e emocional da candidata, com reflexos também sobre seus familiares.
O boletim de ocorrência foi registrado na Casa da Mulher Brasileira, em Salvador, e o caso também foi apresentado à Polícia Federal. Josi afirmou que só teve acesso às mensagens porque uma pessoa que participava do grupo encaminhou capturas de tela. Segundo ela, o número profissional utilizado no programa de rádio que apresenta havia sido incluído em diferentes grupos sem seu conhecimento. Após receber o material, a candidata reuniu as provas e registrou a ocorrência.
A Polícia Federal também acompanha uma denúncia apresentada por Josi em 2024, quando ela disputou a Prefeitura de Coração de Maria. Naquele período, a candidata chegou a usar colete à prova de balas durante uma convenção partidária após relatar ameaças. A advogada Jordanna Sá afirmou, na ocasião, que Josi e familiares recebiam ameaças de morte.
Josi afirmou que o caso representa uma realidade enfrentada por mulheres que ingressam na política, mesmo diante de iniciativas de órgãos como o Ministério Público, o Tribunal Superior Eleitoral e a Justiça Eleitoral para ampliar a participação feminina. A candidata também relacionou o agravamento da situação à mudança de posicionamento político neste ano. Ela deixou a base de apoio do grupo do prefeito Kley Carneiro Lima, aliado do governador Jerônimo Rodrigues (PT), e anunciou alinhamento com ACM Neto, passando a atuar na oposição ao grupo político municipal e ao grupo ligado ao governo estadual.
Procurado pelo Correio, Alexandre Bronca afirmou, por meio do WhatsApp, que não tinha conhecimento do processo e negou ter feito ameaças. Sérgio Luís Pereira Rocha não respondeu aos contatos da reportagem até a publicação. A Prefeitura de Coração de Maria também não se manifestou.
Entre as medidas determinadas pela Justiça Eleitoral estão a proibição de aproximação de Josi, de seus familiares e de testemunhas em distância inferior a 200 metros, além da proibição de qualquer contato por telefone, aplicativos de mensagens, e-mail ou redes sociais. A decisão também impede a divulgação de imagens, vídeos, áudios ou outros conteúdos considerados ofensivos, difamatórios ou vexatórios contra a candidata, bem como ataques públicos durante atos políticos, nas redes sociais ou em grupos de mensagens. O descumprimento das determinações pode resultar em prisão preventiva.