O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou repercussão ao comentar o custo de vida e os preços dos alimentos durante comício realizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite desta sexta-feira (11). Ao falar sobre as dificuldades enfrentadas pela população, Lula recorreu a uma solução bastante direta para quem não consegue comprar carne: trocar o alimento pelo ovo.
“Se não tem carne, a gente come ovo. Se não tem ovo, a gente come carne”, afirmou o presidente. Na sequência, Lula contou que, quando não tinha nenhum dos dois alimentos, levava “marmita, feijão e arroz puro”. A declaração rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais, especialmente pelo contraste entre o discurso presidencial e a realidade de famílias que enfrentam dificuldades para fechar as contas no supermercado.
O próprio presidente reconheceu que o problema existe. Durante o discurso, afirmou saber que “o custo de vida está caro” e citou especificamente carne, café e ovos. A fala ocorre enquanto o governo tenta transformar a recuperação do poder de compra em uma das vitrines de sua campanha pela reeleição.
Lula também afirmou que pretende fazer o salário mínimo comprar “muito mais cesta básica”. Segundo ele, atualmente o mínimo voltou a ter capacidade de adquirir cerca de duas cestas básicas, depois de ter chegado a comprar apenas uma e meia no início de seu atual mandato.
O discurso, porém, encontra um cenário que permite uma leitura menos confortável para o governo. Embora o IPCA tenha registrado deflação de 0,32% em agosto e o grupo de alimentação e bebidas tenha recuado 0,34%, carnes e outros produtos continuam pressionando o orçamento das famílias.
Em junho, levantamento do Dieese apontou que a cesta básica havia subido em 17 capitais. Em São Paulo, por exemplo, o custo chegou a R$ 965,47, enquanto o salário mínimo vigente era de R$ 1.621. O cálculo do Dieese indicava que, considerando a cesta mais cara, o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 8.110,92.
A fala de Lula, portanto, expõe uma contradição incômoda: enquanto o presidente promete um salário mínimo capaz de comprar cada vez mais comida, o brasileiro que vai ao mercado continua fazendo contas, substituindo produtos e escolhendo o que cabe no carrinho. No fim das contas, entre a promessa de uma cesta básica mais acessível e a realidade do supermercado, ainda existe uma conta — e quem paga é o consumidor.