Me pego pensando comigo mesma: será que a arte é uma das maneiras que os artistas encontram para não sofrerem sozinhos?
Penso nisso quando vejo a obra de Yayoi Kusama, aquela artista japonesa, conhecida mundialmente, mas que faleceu no último dia 14 de agosto e que possui obras de destaque expostas no instituto Inhotim, em Minas Gerais.
Ficou famosa por suas obras, transformou alucinações visuais que tinha desde a infância em arte. Há uma beleza quase hipnótica em seus pontos, suas cores, seus espelhos, seu infinito. Mas, olhando um pouco além da beleza, existe também alguma coisa difícil de explicar. Uma certa tristeza. Uma inquietação.
Kusama conviveu durante muitos anos com essas visões que lhe causavam sofrimento. O que para nós aparece como uma explosão de cores e formas nasceu, também, de uma experiência íntima que nem sempre foi bonita para ela.
E talvez seja justamente isso que torne sua arte tão especial.
Porque, quando olhamos para ela, não vemos apenas beleza. Tentamos imaginar o que havia por trás dela.
Tentamos sentir.
E, por alguns instantes, talvez ela deixe de estar sozinha.
Isso me faz pensar em mim mesma.
Apesar de não parecer, sempre fui tímida. E, junto com a timidez, também a vergonha. A vergonha de falar, de me expor, de não saber exatamente como dizer o que estou pensando ou sentindo.
Durante muito tempo, isso poderia parecer apenas uma dificuldade, fragilidade da minha parte.
Até que encontrei a escrita.
Escrever foi uma maneira de dar forma ao que ficava dentro de mim. Uma maneira de me fazer entender sem precisar necessariamente enfrentar o olhar de alguém.
Talvez cada pessoa tenha uma espécie de linguagem secreta.
Há quem encontre essa mesma linguagem na pintura. Há quem encontre na música, na dança, na fotografia, na arquitetura. Há quem precise declamar. Há quem crie com as mãos. Há quem transforme silêncio em alguma coisa que finalmente possa ser compartilhada.
E talvez exista aí uma outra forma de inclusão.
Não aquela que tenta colocar todos dentro do mesmo molde, mas aquela que entende que cada um de nós pode precisar de uma porta diferente para conseguir chegar ao outro.
Porque sofrer sozinho, definitivamente não é bom.
E ser incompreendido talvez torne o sofrimento ainda maior.
Quando conseguimos transformar aquilo que sentimos em alguma coisa que o outro possa perceber, talvez não resolvamos a dor, mas dividimos um pouco do seu peso.
É isso que sinto diante de uma obra de Kusama.
Eu não conheço a experiência que ela viveu. Não posso saber exatamente o que aquelas alucinações significavam para ela. Mas alguma coisa de sua experiência chegou até mim.
Através da arte.
E talvez seja esse o milagre.
Ela sentiu algo que eu nunca senti. Eu vejo algo que ela criou. E, por alguns instantes, conseguimos nos encontrar no meio do caminho.
Talvez a arte seja um pouco isso.
Fazer com que outras pessoas sintam aquilo que sentimos.
Dar ao outro a possibilidade de entrar, ainda que por alguns instantes, em um lugar que antes só existia dentro de nós.
Talvez seja por isso que algumas obras nos emocionam tanto e outras nem tanto.
Porque não precisamos entender completamente para sentir.
E quando sentimos junto, mesmo sem conhecer a história inteira, alguém que estava sozinho deixa de estar.
A beleza, talvez não esteja apenas naquilo que vemos.
Está também naquilo que conseguimos fazer o outro sentir.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de existir: encontrar coragem para transformar o que dói, o que envergonha, o que assusta ou o que parece impossível de explicar em alguma coisa que possa alcançar alguém. Seja na forma que for:
Uma pintura. Uma música. Uma palavra. Uma escrita.
E, do outro lado, alguém dizendo, mesmo sem palavras: eu não sei exatamente o que você sentiu; mas eu senti alguma coisa também.
Nos vemos no próximo mês!
Lizandra Cruz Monteiro