Geral Saúde
Lula diz que SUS fornecerá canetas emagrecedoras, mas medida ainda depende de três etapas
Oferta dos medicamentos ainda depende de avaliação da Conitec, definição de protocolo clínico e previsão do impacto orçamentário
18/09/2026 23h49
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
Foto: Reprodução

A oferta gratuita de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS), anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda depende de pelo menos três etapas antes de chegar de forma ampla à rede pública. A incorporação precisa passar pela avaliação e recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), por uma decisão formal do Ministério da Saúde, pela criação de um protocolo clínico que estabeleça os critérios de acesso e pela definição do impacto orçamentário e da fonte dos recursos.

Lula, que é candidato à reeleição, fez a declaração durante um evento em Minas Gerais na quinta-feira (17). Na mesma ocasião, anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família, com vigência a partir de outubro. Segundo o presidente, as canetas serão oferecidas gratuitamente no SUS para ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sob protocolos médicos. A declaração, porém, não estabeleceu prazo para a disponibilização dos medicamentos na rede pública.

“As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS. Elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população”, afirmou Lula em publicação nas redes sociais.

O Ministério da Saúde informou que os medicamentos serão implementados de forma responsável, mas não detalhou quando o acesso estará disponível, qual será o impacto orçamentário da medida ou quais serão os critérios definitivos para a oferta. Em nota divulgada após a declaração, a pasta informou que trabalha na definição de um protocolo clínico e conduz estudos para avaliar a utilização dos medicamentos no SUS.

Atualmente, o SUS não dispõe de medicamento incorporado especificamente para o tratamento da obesidade. A cirurgia bariátrica é uma das alternativas disponíveis na rede pública, mas o acesso é condicionado aos critérios clínicos e à disponibilidade do procedimento. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% apresenta obesidade, condição associada a outras doenças e complicações de saúde.

O Ministério da Saúde vem adotando medidas relacionadas ao acesso a medicamentos dessa classe. A pasta solicitou prioridade à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na análise de novos registros, em uma estratégia que também busca ampliar a concorrência e reduzir os preços. Em julho, a Anvisa aprovou cinco novos medicamentos à base de semaglutida após o pedido de prioridade feito pelo ministério.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil chegou a 14 produtos registrados para o tratamento da obesidade. A expansão da oferta no mercado contribuiu para a redução dos preços. De acordo com a pasta, medicamentos que anteriormente custavam entre R$ 1,7 mil e R$ 2 mil passaram a ser encontrados na faixa de R$ 300 a R$ 400 nas farmácias.

Outro movimento é um projeto-piloto desenvolvido pelo Ministério da Saúde em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, com o uso de semaglutida em pacientes com obesidade grave ou associada a outras morbidades. O estudo, denominado Real-Bari, acompanha 250 pacientes do SUS atendidos pelo Grupo Hospitalar Conceição que estão na fila para cirurgia bariátrica. A primeira aplicação ocorreu em 26 de junho, e a pesquisa tem duração prevista de dois anos.

O estudo utiliza um protocolo de pesquisa elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a equipe técnica do Grupo Hospitalar Conceição. A proposta é avaliar a segurança do tratamento, o acompanhamento dos pacientes e os efeitos da semaglutida em pessoas com obesidade, produzindo informações que possam contribuir para a definição de diretrizes para eventual utilização da tecnologia em escala nacional.

A queda da patente da semaglutida, princípio ativo utilizado em medicamentos como Ozempic e Wegovy, também alterou o cenário do mercado brasileiro. O Ministério da Saúde havia solicitado à Anvisa prioridade na análise de pedidos de registro de novos medicamentos antes do fim da exclusividade. Em 2026, novos produtos à base da substância foram registrados no país, incluindo medicamentos genéricos.

A produção nacional também faz parte da estratégia do governo. Em 2025, o Ministério da Saúde anunciou uma parceria com a farmacêutica EMS para a produção de canetas à base de semaglutida destinadas ao mercado brasileiro e, futuramente, à rede pública. Até o momento, porém, a incorporação ao SUS ainda depende das etapas regulatórias, técnicas e orçamentárias.

A avaliação da Conitec é uma das principais etapas pendentes. O órgão, vinculado ao Ministério da Saúde, analisa a eficácia, a segurança e o custo de novas tecnologias antes de recomendar ou não sua incorporação ao SUS. A decisão final cabe ao Ministério da Saúde. Em setembro de 2025, uma decisão formal havia determinado a não incorporação da semaglutida para um grupo específico de pacientes com obesidade graus II e III, sem diabetes, com 45 anos ou mais e doença cardiovascular estabelecida. A matéria pode ser submetida novamente à avaliação caso sejam apresentados fatos novos.

A Conitec se reuniu em 4 de setembro, mas a discussão sobre a semaglutida que poderia ocorrer naquela reunião acabou adiada, segundo informações apuradas pelo g1. A próxima reunião está prevista para 7 de outubro. Sem a avaliação e a decisão necessárias, a nova oferta do medicamento não pode ser implementada de forma ampla no SUS.

Mesmo uma eventual recomendação favorável da Conitec não significaria que os medicamentos chegariam imediatamente aos postos de saúde e hospitais. Há ainda a necessidade de estabelecer o protocolo clínico, que definirá quem poderá receber o tratamento, em quais condições e por quanto tempo.

A definição do protocolo também é necessária para calcular com maior precisão o impacto financeiro da incorporação. Uma estimativa da Conitec, considerando uma dose inicial de semaglutida de R$ 727,25, apontou impacto orçamentário acumulado de R$ 7 bilhões em cinco anos. Em outro cenário, utilizando preços iniciais a partir de R$ 400 e estimando que ao menos 150 mil pessoas utilizariam o medicamento no primeiro ano, o impacto seria de R$ 703 milhões em 2026 e poderia chegar a R$ 3,6 bilhões em cinco anos, considerando o ritmo de crescimento utilizado na análise de 2025.

Os valores podem sofrer alterações conforme a definição do medicamento, do preço negociado, da quantidade de pacientes atendidos e do protocolo clínico. Também é necessário considerar que a obesidade é uma doença crônica e que parte dos pacientes pode precisar de tratamento contínuo.

Especialistas também avaliam o impacto financeiro das doenças associadas à obesidade. Segundo dados apresentados na análise, um paciente que sofre um acidente vascular cerebral (AVC) representa custo superior a R$ 57 mil ao SUS, enquanto um paciente em diálise pode gerar despesa próxima de R$ 73 mil apenas no primeiro ano. Um infarto tem custo médio de R$ 4,9 mil, e uma internação por insuficiência cardíaca custa cerca de R$ 17,8 mil.

Outro ponto pendente é a definição de uma política pública específica para obesidade. Apesar do uso popular da expressão “canetas emagrecedoras”, os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 são utilizados no tratamento de doenças como diabetes tipo 2 e obesidade e precisam de indicação, acompanhamento médico e critérios clínicos definidos.

O projeto-piloto conduzido em Porto Alegre busca justamente produzir informações sobre como esse tratamento pode ser aplicado na rede pública. Os 250 pacientes recebem semaglutida sob acompanhamento de profissionais de saúde, dentro de um protocolo específico. A primeira aplicação ocorreu em 26 de junho.

Para Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação dos medicamentos ao SUS precisa ser acompanhada de uma política de Estado que assegure a continuidade do fornecimento e a distribuição de forma igualitária em todo o país. Segundo ele, o tratamento deveria estar associado a uma linha de cuidado que envolva médicos, educadores físicos, nutricionistas, equipes especializadas e estrutura adequada.

Dornelas também defende critérios clínicos para definir os pacientes que teriam acesso aos medicamentos. Entre os grupos citados pelo médico estão pessoas com obesidade diagnosticada e pacientes com sobrepeso associado a doenças como diabetes e hipertensão. A definição final, porém, dependeria dos critérios estabelecidos pelo poder público e da capacidade orçamentária para financiar o tratamento.

A pesquisadora Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP), também considera os medicamentos uma ferramenta importante no tratamento da obesidade, mas defende que eventual incorporação seja acompanhada pela estruturação de uma política pública mais ampla, com equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional para o enfrentamento da doença.

A avaliação ocorre em um cenário no qual o Ministério da Saúde já conduz ações para ampliar o acesso aos medicamentos e estuda sua utilização na rede pública. Até que sejam concluídas as etapas de avaliação, regulamentação, definição dos critérios de acesso e previsão de recursos, as canetas não estarão disponíveis de forma ampla e gratuita nos postos e hospitais do SUS.