O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de colaboração premiada, que um grupo político ligado ao senador Jaques Wagner (PT-BA) receberia cerca de R$ 3 milhões por mês em supostas vantagens indevidas relacionadas à operação do Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos. O relato foi incluído em um dos anexos da proposta, que acabou rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República por falta de elementos considerados suficientes para sua corroboração.
Segundo Vorcaro, os supostos repasses ocorreriam de duas formas. Cerca de R$ 2 milhões mensais seriam destinados por meio de um contrato entre o Banco Master e a PKL One, empresa responsável pela exploração do Credcesta, enquanto aproximadamente R$ 1 milhão seria pago em espécie. O ex-banqueiro afirmou, porém, que não presenciou diretamente o suposto acordo e que tomou conhecimento da operação por meio de seu então sócio Augusto Lima.
O relato aponta ainda que haveria outras formas de repasse, como distribuição de lucros e dividendos da PKL One e contratos que Vorcaro classificou como fictícios. A proposta também menciona a participação indireta de pessoas ligadas ao grupo político na estrutura societária da empresa. Documentos analisados na apuração confirmam a existência do contrato que previa pagamentos mensais de cerca de R$ 2 milhões, mas não identificam Wagner ou outro político como beneficiário e, isoladamente, não comprovam que os valores tenham sido destinados ao pagamento de propina.
A origem do relato está ligada à operação do Credcesta na Bahia. Segundo a proposta de delação, o acordo teria sido estabelecido em 2018, quando o Banco Master comprou participação na empresa que administrava o cartão, criado no âmbito da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). A estatal foi vendida naquele ano, período em que Jaques Wagner ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do governo Rui Costa. Posteriormente, os direitos de exploração do Credcesta foram transferidos para a PKL One.
O documento também cita Guilherme Sodré, conhecido como Guiga, como suposto intermediário ligado a Wagner e aponta sua participação na estrutura de fundos que tinha ligação indireta com a PKL One. A documentação, contudo, confirma apenas a presença de Sodré na estrutura societária e não demonstra que ele detivesse a participação em nome de Wagner. Paralelamente, a Polícia Federal já investiga o senador em apurações relacionadas ao Banco Master, incluindo suspeitas sobre eventuais vantagens e atuação em favor de interesses da instituição.
As defesas dos envolvidos contestaram o conteúdo da proposta. A defesa de Jaques Wagner classificou as acusações como falsas e negou qualquer relação do senador com contratos fictícios ou com a PKL One. Augusto Lima também rejeitou as alegações e afirmou que o contrato com o Banco Master correspondia a serviços efetivamente prestados. A defesa de Vorcaro, por sua vez, repudiou a divulgação dos anexos e informou não reconhecer a origem, a autenticidade e a integridade do material.