Esporte Futebol Brasileiro
Possível proibição das bets pode afetar quase R$ 1 bilhão em patrocínios da Série A
Treze dos 20 clubes têm casas de apostas como patrocinadoras principais; contratos somam R$ 958,5 milhões em valores-base, sem bônus
25/09/2026 16h10
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
Foto: Divulgação

Uma possível proibição das plataformas de apostas no Brasil coloca em discussão quase R$ 1 bilhão em contratos de patrocínio de 13 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 2026. Levantamento da revista Placar reproduzido pelo Correio aponta R$ 958,5 milhões em valores-base nos acordos com casas de apostas, sem considerar bônus e metas previstos em alguns contratos. O governo federal prepara uma medida sobre o setor, enquanto clubes e entidades esportivas discutem os possíveis efeitos sobre as receitas do futebol.

Os valores não estão distribuídos igualmente entre as equipes. O maior contrato da relação é o do Flamengo com a Betano, de R$ 268,5 milhões por ano. A cifra supera a soma dos sete menores acordos da lista, referentes a Botafogo, Vasco, Cruzeiro, Santos, Vitória, Remo e Chapecoense, que totalizam R$ 232 milhões nos valores-base. Flamengo, Corinthians, Palmeiras e São Paulo concentram R$ 608,5 milhões, cerca de 63% dos R$ 958,5 milhões contabilizados pelo levantamento sem os bônus.

O Corinthians recebe R$ 150 milhões fixos por ano da Esportes da Sorte, com possibilidade de chegar a R$ 200 milhões conforme o cumprimento de metas e bônus. O Palmeiras tem contrato de R$ 100 milhões anuais com a Sportingbet, podendo alcançar R$ 170 milhões. Já o São Paulo recebe R$ 90 milhões por ano da Superbet, com potencial de chegar a R$ 115 milhões por meio de gatilhos de desempenho.

Na faixa intermediária estão Atlético-MG, com R$ 60 milhões da H2Bet; Fluminense, com R$ 58 milhões da Superbet, podendo chegar a R$ 86 milhões; Botafogo, com R$ 55 milhões da VBet; e Cruzeiro, com R$ 50 milhões da Betnacional. O Vasco recebe R$ 50 milhões fixos da Sportingbet até o fim da temporada, valor que pode alcançar R$ 100 milhões anuais com bônus e metas.

Também integram a relação Santos, com R$ 35 milhões da Novibet e potencial de R$ 50 milhões; Vitória, com R$ 20 milhões da 7K Bet; Remo, com R$ 12 milhões da Vaidebet; e Chapecoense, com R$ 10 milhões da ZeroUm. Os valores considerados no levantamento são os contratos-base, e os acordos que preveem bonificações podem atingir cifras superiores conforme o cumprimento das condições estabelecidas.

Sete equipes da Série A não têm empresas de apostas como patrocinadoras master em 2026: Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Mirassol e Red Bull Bragantino. Com isso, os contratos diretamente relacionados às casas de apostas estão concentrados em 13 clubes, o equivalente a 65% das equipes da elite nacional.

A discussão ganhou força após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmar, na quarta-feira, 23 de setembro, que pretende encerrar as atividades das plataformas de apostas no país. Segundo o material publicado pelo Correio, Lula afirmou que os clubes terão de buscar outras fontes de receita e relacionou as bets a problemas sociais, aos efeitos dos algoritmos sobre os jovens e a indícios de lavagem de dinheiro. Em outra declaração registrada pela imprensa, o presidente afirmou que a decisão sobre o setor estava tomada.

A medida ainda dependia da definição de seu formato. O Ministério da Fazenda avaliava alternativas que iam desde a proibição total das operações no país até restrições à publicidade, proibição apenas de cassinos virtuais e jogos de azar on-line ou uma transição gradual para o encerramento ou alteração do mercado regulado. A equipe econômica também analisava os aspectos jurídicos e os possíveis efeitos sobre a arrecadação antes da definição do texto.

Na apuração mais recente, o governo também avaliava medidas destinadas a reduzir o impacto financeiro de uma eventual proibição sobre os clubes. Entre as possibilidades discutidas estavam linhas de crédito com juros menores e a renegociação de dívidas das equipes com a União. A intenção seria tratar dos efeitos econômicos da mudança paralelamente à definição das regras para as plataformas.

Os clubes reagiram à possibilidade de mudança no mercado com um manifesto conjunto publicado em 17 de setembro. Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Fluminense, Flamengo, Vasco e Cruzeiro estão entre os clubes que assinaram o documento, além de federações estaduais. As equipes afirmaram que as casas de apostas autorizadas se tornaram uma fonte relevante de receitas para o futebol e apontaram possíveis impactos sobre folhas de pagamento, clubes menores, divisões de acesso e competições regionais.

No documento, os clubes também defenderam o combate ao mercado ilegal e afirmaram: “Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades”. A manifestação representa a posição das entidades que participaram do documento.

A relação financeira entre futebol e apostas se ampliou nos últimos anos, mas os valores já passaram por mudanças em 2026. Levantamento da Folha de S.Paulo publicado em 18 de setembro apontou que 18 dos 20 clubes da Série A tinham uma bet como patrocinadora master em 2025, ante 13 na temporada atual. Segundo o mesmo levantamento, houve redução da presença de empresas do setor no espaço principal de algumas camisas, enquanto determinados clubes ampliaram ou mantiveram contratos de maior valor.

O debate ocorre, portanto, entre duas dimensões distintas: de um lado, as discussões do governo sobre os efeitos sociais e econômicos das apostas e, de outro, a participação das empresas desse setor no financiamento do futebol brasileiro. Enquanto a definição das novas regras não é formalizada, permanecem em vigor os contratos atualmente firmados entre clubes e casas de apostas, sujeitos às condições previstas em cada acordo.