Camaçari Impasse
Sindicato acusa BYD de apresentar “duas versões” sobre paralisação em Camaçari e cobra esclarecimentos
Júlio Bonfim afirma que não houve bloqueio da fábrica e questiona versão divulgada pela montadora; empresa diz que caminhão de som bloqueou parcialmente acesso de veículos
27/09/2026 14h32
Por: Luana Velloso Fonte: Mais Região
Foto: Reprodução

A paralisação de 24 horas dos trabalhadores da BYD em Camaçari ganhou um novo capítulo neste domingo (27). O secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, Júlio Bonfim, publicou nas redes sociais uma manifestação em que contesta a versão apresentada pela montadora sobre o movimento realizado na última sexta-feira (25) e levanta questionamentos sobre o que foi informado à Justiça e à imprensa.

Em nota divulgada na sexta, a BYD afirmou que a produção do complexo industrial ficou paralisada por 24 horas em razão do protesto convocado pelo sindicato. A empresa também declarou que um caminhão de som da entidade permaneceu em frente à entrada principal e teria bloqueado parcialmente o acesso de veículos que transportavam trabalhadores. Segundo a montadora, as equipes administrativas conseguiram entrar no complexo e trabalharam normalmente. 

A publicação de Júlio Bonfim, entretanto, apresenta uma versão diferente. O sindicalista afirma categoricamente que não houve bloqueio da fábrica e sustenta que os trabalhadores apenas realizaram uma assembleia, aprovaram coletivamente a paralisação de 24 horas e, após a decisão, foram para casa. Ele também afirma que as imagens registradas durante o movimento mostram a circulação de veículos e ônibus e o funcionamento dos acessos.

O ponto mais contundente da manifestação está no questionamento dirigido à própria BYD: “Como a empresa pode apresentar uma realidade em seu próprio documento e, ao mesmo tempo, apresentar outra versão dos fatos à Justiça e à imprensa?” Bonfim afirma que a divergência precisa ser esclarecida e cita a possibilidade de a apresentação deliberadamente distorcida de fatos em um processo judicial caracterizar litigância de má-fé. Pela legislação processual, alterar a verdade dos fatos é uma das hipóteses previstas para caracterização de litigância de má-fé, mas a existência dessa conduta em um caso concreto depende de análise e decisão judicial. 

A polêmica ocorre em meio ao impasse do dissídio dos trabalhadores da BYD. A paralisação foi aprovada após as negociações salariais não avançarem. Segundo informações divulgadas durante a mobilização, a empresa apresentou proposta de reajuste de 4,5%, enquanto o sindicato reivindica 9,5%, incluindo reposição inflacionária e aumento real. 

O caso já chegou ao Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5), que participa das tentativas de mediação entre as partes. Em agosto, os trabalhadores haviam aprovado estado de greve e rejeitado uma proposta apresentada pela montadora. 

Com o confronto público entre as versões, a disputa deixa de estar restrita ao percentual de reajuste e passa a envolver também a narrativa sobre o próprio movimento grevista. De um lado, a BYD registra em nota a interrupção da produção e menciona bloqueio parcial de acesso; do outro, o sindicato nega que tenha havido bloqueio e questiona a forma como os fatos foram apresentados. A divergência agora coloca documentos, imagens e eventuais registros da mobilização no centro da discussão.