Política em Foco Nos EUA
Após deixar o Brasil, Flávio Bolsonaro recua de autoproclamação e se apresenta como “líder do Brasil”
Em carta divulgada nos Estados Unidos, senador voltou a questionar o resultado das eleições sem apresentar provas de fraude; PF informou que descumprimento de medidas judiciais não significa, por si só, que ele esteja foragido, e Donald Trump afirmou que não pretende se envolver na questão eleitoral brasileira
28/10/2026 21h06
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
FOTO: BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto

O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de domingo (25), divulgou nesta quarta-feira (28), após chegar aos Estados Unidos com a família, uma carta em que voltou a contestar o resultado da votação e fez acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas. Na primeira versão do documento, ele se dirigiu aos brasileiros e à comunidade internacional como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Posteriormente, publicou uma versão revisada, na qual substituiu a expressão por “líder do Brasil”, mas manteve os questionamentos ao processo eleitoral.

A viagem ocorreu após o senador deixar o Brasil em descumprimento de determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para entregar os passaportes à Polícia Federal (PF) e da proibição de sair do território nacional. A corporação informou nesta quarta-feira que a situação não caracteriza, por si só, que Flávio esteja foragido. Também esclareceu que não há autorização de prisão, vigilância permanente ou imposição de outras medidas cautelares contra ele, conforme a nota divulgada. A PF, contudo, investiga as circunstâncias da saída do parlamentar do país.

Na primeira versão da carta, composta por três páginas, Flávio agradeceu ao presidente da Argentina, Javier Milei, e ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por “acolhê-lo”. O senador afirmou que “criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania” e pediu à comunidade internacional que “não normalize o que está acontecendo no Brasil”.

“Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação”, declarou. Em seguida, dirigiu um apelo às instituições brasileiras e afirmou que o país vive um cenário de “caos jurídico, de corrupção e de perseguição política”. Também alegou que a oposição tem medo de se manifestar e que a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Ao final, defendeu o restabelecimento do equilíbrio entre os Poderes e a recuperação da confiança da população nas instituições.

O senador voltou a questionar a extensão do horário de votação no segundo turno, que ocorreu das 8h às 17h e foi prorrogado até as 19h em determinadas localidades, por decisão do ministro do STF Cristiano Zanin, diante de problemas relacionados ao transporte público e às condições climáticas. A ampliação do horário, porém, não foi solicitada apenas pela coligação de Lula: a campanha de Flávio Bolsonaro também pediu a prorrogação.

Sem apresentar evidências, Flávio afirmou ter ficado “estarrecido [ao ver] uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos”. Também atribuiu ao que chamou de “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” a possibilidade de o presidente ter acrescentado mais de 10 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno, resultado que classificou como uma “impossibilidade matemática”.

Os números da votação, no entanto, não sustentam essa alegação. Segundo os dados mencionados no levantamento sobre a apuração, menos de 35 mil votos foram registrados nas urnas entre as 17h e as 19h do domingo (25), enquanto a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro no resultado nacional foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos. Ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do STF já descartaram a possibilidade de anulação do segundo turno. O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, afirmou que a prorrogação do horário não comprometeu a apuração e declarou confiança na lisura da votação e na segurança do sistema eleitoral. O próprio PL, partido de Flávio, reconheceu o resultado das eleições.

Na carta, o senador também negou ter fugido do Brasil. “Não fugi do Brasil”, escreveu, afirmando que “saiu pelo Brasil” de um suposto “regime de exceção” para se tornar o “líder que o seu povo merece”. Ele acrescentou que, se estivesse “calado, preso e censurado”, como disse estar seu pai, não poderia exercer essa liderança. O ex-presidente Jair Bolsonaro está preso após ser condenado a 27 anos e três meses de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.

Flávio também é alvo de investigações. Uma delas apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz, que já estava em Miami, nos Estados Unidos. Outra investigação trata de possíveis irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A PF informou ainda que não há registro oficial da saída de Flávio pelos postos de controle migratório brasileiros. No domingo (25), a corporação havia representado ao STF pela adoção de medidas cautelares, incluindo apreensão de passaportes, proibição de deixar o país e restrição de contato com outros investigados, após identificar risco de saída do senador do território nacional.

Na mesma quarta-feira (28), Trump afirmou que não pretende interferir na questão eleitoral brasileira. Questionado sobre a carta de Flávio, o presidente americano confirmou que os Estados Unidos autorizaram a entrada do senador e de seus familiares, mas evitou assumir uma posição sobre o caso.

“Nós lhe demos permissão para entrar no país, então vamos ver, mas eu não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha... Eu pensei que eles foram tratados de forma muito injusta e eu não tomei uma posição na eleição, como você sabe, mas quando eu vejo algo que é inadequado, eu levanto o assunto”, declarou Trump.

Na segunda-feira (26), o presidente americano já havia questionado o processo eleitoral brasileiro, afirmando que a votação “pareceu mais uma eleição fraudada”, embora tenha dito que gosta de Lula. As declarações foram feitas sem apresentação de provas que sustentassem as suspeitas.

 

A primeira versão da carta de Flávio também chamou a atenção pelo símbolo utilizado. O documento trazia uma adaptação do brasão histórico brasileiro com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, grafia adotada após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. A expressão substituía a denominação “República Federativa do Brasil”, presente no brasão oficial atual. A versão posterior do documento apresentou alterações, incluindo a retirada da referência explícita à condição de presidente eleito.

A saída do Brasil e a chegada aos Estados Unidos

Flávio Bolsonaro viajou para os Estados Unidos dois dias após perder a eleição presidencial para Lula. O senador deixou o Brasil na terça-feira (27), acompanhado da mulher e das duas filhas, e chegou a Miami na manhã desta quarta-feira (28), em uma viagem realizada por avião particular.

O governo argentino confirmou que o parlamentar entrou no país na noite de terça-feira, por via terrestre. Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, a família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, às 22h50. As autoridades informaram que os integrantes do grupo apresentaram documentação válida e não tinham impedimentos legais para entrar em território argentino.

De acordo com as informações divulgadas, a família iniciou os procedimentos para deixar a Argentina por volta das 23h30. O grupo embarcou em uma aeronave particular no aeroporto de Puerto Iguazú. O voo, operado pela empresa Baires Fly, tinha como destino declarado Guayaquil, no Equador, onde faria uma escala para reabastecimento antes de seguir para Miami. Segundo o portal argentino Infobae, oito passageiros estariam a bordo.

O avião pousou às 10h24, no horário de Brasília, no Aeroporto Executivo de Opa-locka, em Miami, segundo informações do serviço de rastreamento de voos FlightRadar. Durante o trajeto, a aeronave chegou a figurar entre os voos mais acompanhados do mundo na plataforma, com mais de 65 mil pessoas monitorando o deslocamento.

A saída ocorreu após o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinar que Flávio entregasse seus passaportes e proibir que deixasse o território brasileiro. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o senador utilizou um passaporte italiano para entrar na Argentina. Os passaportes brasileiros comum e diplomático haviam sido cancelados após a decisão judicial.

 

A PF informou que investiga as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais e busca esclarecer como ocorreu a saída do parlamentar, já que não há registro oficial de passagem dele pelos postos de controle migratório brasileiros. A corporação havia solicitado as medidas cautelares ao STF no domingo (25), após identificar risco de que o senador deixasse o país. Entre as medidas requeridas estavam a apreensão dos passaportes, a proibição de saída do território nacional e a restrição de contato com outros investigados.

A chegada de Flávio e de seus familiares aos Estados Unidos ocorre em meio às investigações que envolvem o senador e à decisão do governo americano de conceder vistos ao grupo. A medida também foi alvo de críticas de congressistas democratas dos Estados Unidos. O Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes questionou o tratamento concedido à família Bolsonaro, comparando a autorização de entrada com as restrições migratórias impostas a pessoas que tentam deixar países em situação de conflito.