Áudios atribuídos ao presidente interino do Sindicato dos Rodoviários de Salvador, Fábio Primo, apontam uma suposta mobilização de integrantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) para adesivar ônibus do transporte público com propaganda do PT durante o segundo turno das eleições, no último domingo (25). Nas gravações, divulgadas nas redes sociais, o interlocutor orienta a distribuição dos materiais e recomenda que os adesivos sejam colocados apenas nos veículos que efetivamente sairiam das garagens para circular.
Em um dos trechos, a voz atribuída a Primo afirma que a quantidade de adesivos era insuficiente para atender a toda a frota e orienta os participantes a consultar os operadores para identificar os ônibus que deixariam as garagens. "Não tem material suficiente para todos os carros, então, quando chegar, temos que pegar na mão do operador o número dos carros que vão sair, para a gente colar apenas nos carros que vão sair, até porque eles não colocam 100% da frota", diz a mensagem.
Em outro momento, o interlocutor convoca os envolvidos a assumir responsabilidades na ação e afirma que o momento seria "crucial". A gravação também menciona a necessidade de buscar e distribuir os adesivos entre os participantes. A voz que aparece nos áudios é atribuída a Fábio Primo, mas o conteúdo ainda está sujeito à apuração.
A divulgação das mensagens ocorre após a retenção de ônibus nas garagens durante o domingo de votação. Na ocasião, a presença de adesivos com propaganda eleitoral nos coletivos foi apontada como justificativa para impedir a saída de parte dos veículos, sob a alegação de possível irregularidade eleitoral. A redução da oferta do transporte público também passou a ser investigada, diante das dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação.
Procurado pela reportagem, Fábio Primo preferiu se manifestar por meio de nota do Sindicato dos Rodoviários. A entidade contestou a tentativa de atribuir ao sindicato e aos seus diretores a responsabilidade pela retenção dos ônibus sem a devida comprovação. No comunicado, classificou como "inadmissível" a divulgação de versões que, segundo a representação dos trabalhadores, distorcem os acontecimentos e desviam a atenção das circunstâncias que levaram à paralisação dos veículos.
O sindicato afirmou que não aceitará acusações que considera infundadas nem tentativas de deslegitimar sua atuação. Também defendeu que os fatos sejam apurados com seriedade, responsabilidade e transparência, sem manipulações ou atribuições indevidas de culpa. A entidade acrescentou que sua atuação deve ser compreendida a partir do compromisso com a defesa dos trabalhadores e com o respeito aos direitos democráticos.
A retenção dos coletivos e a redução da frota já são alvo de apurações em diferentes instâncias. A Procuradoria-Geral do Estado da Bahia (PGE-BA) apresentou, na quarta-feira (28), uma notícia-crime ao Ministério Público Federal (MPF), solicitando a investigação de possíveis irregularidades na oferta do transporte público durante o segundo turno. O áudio foi acrescentado aos elementos relacionados ao caso. Até a publicação das informações, não havia conclusão sobre as responsabilidades.
Levantamento do Procon-BA identificou 944 ônibus parados em garagens de concessionárias durante a fiscalização realizada no domingo (25). O órgão também apontou ausência de equipes operacionais e de apoio de plantão nas empresas. Segundo o relatório, a fiscalização não constatou adesivação generalizada nos veículos, uma das justificativas apresentadas para a retenção da frota. Os documentos foram encaminhados às autoridades competentes para apuração.
Na terça-feira (27), vereadores da oposição solicitaram à Câmara Municipal de Salvador a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar a redução do serviço. O pedido foi apresentado ao presidente da Casa, Carlos Muniz (PSDB), em reunião a portas fechadas. Na ocasião, a oposição informou ter reunido dez das 14 assinaturas necessárias para a instalação da comissão. A Câmara possui 43 vereadores. O objetivo declarado pelos parlamentares é apurar o episódio e identificar eventuais responsáveis.
Relatórios de inspeção realizados por juízes do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) também registraram ônibus estacionados em garagens de empresas durante o período de votação. Na sede do BRT, na Avenida Barros Reis, um supervisor confirmou que a quantidade de veículos em circulação era inferior à dos dias úteis e afirmou que a empresa seguia orientação da Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob). Situação semelhante foi constatada nas garagens da Integra Verde G2, no bairro de Santa Mônica, e da Ottrans G1, na Estrada Velha de Campinas de Pirajá. Nas duas unidades, operadores de tráfego também confirmaram a circulação de uma frota menor. Vídeos anexados ao processo mostram dezenas de ônibus parados nos pátios.
Em entrevista à TV Bahia na terça-feira (27), o secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, afirmou que a prefeitura adotou nos dois turnos o mesmo planejamento de transporte utilizado em eleições anteriores. Segundo ele, a frota municipal é composta por 1,7 mil ônibus, dos quais 850 circularam no primeiro e no segundo turno, o equivalente a 50% do total. O secretário argumentou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não determinou a operação de 100% da frota em nenhuma cidade do país.
A Resolução nº 23.751 do TSE, de fevereiro de 2026, estabelece, no artigo 23, que o poder público deve assegurar transporte coletivo gratuito nos dias de votação, com frequência compatível com a dos dias úteis. A norma também prevê que a oferta não deve incluir propaganda partidária ou eleitoral. A redução do serviço habitualmente ofertado nesses dias pode configurar crimes eleitorais previstos no Código Eleitoral.
Além disso, uma publicação da própria Semob sobre a operação do segundo turno informava que seria utilizada "100% da frota utilizada em dias úteis, sem a redução habitual de veículos aos domingos". O Sindicato dos Rodoviários, por sua vez, informou que a frota costuma ser reduzida nos fins de semana para até 50%, em razão das folgas dos funcionários, e que a operação montada para o dia da votação seguia o planejamento de um domingo comum.
Pablo Souza afirmou que a diferença entre as operações dos dois turnos esteve relacionada à colocação de adesivos com propaganda eleitoral nos ônibus. A investigação sobre a retenção dos veículos e a redução da frota segue em andamento, sem definição sobre a responsabilidade de cada envolvido.