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Justiça quebra sigilo de documentos da morte de Tancredo Neves; entenda o que pode vir à tona
Decisão do TRF-1 permite que familiares consultem prontuários, exames e registros médicos de 1985; ação tramita desde 2010 e busca esclarecer suspeitas de falhas no atendimento ao presidente eleito
01/11/2026 12h37
Por: Luana Velloso Fonte: G1
Foto: Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo/Arquivo

Mais de 40 anos após a morte de Tancredo Neves, a família do ex-presidente poderá ter acesso a documentos médicos sigilosos sobre a internação e os procedimentos realizados durante o tratamento que antecedeu sua morte. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), após uma disputa judicial que se estendeu por cerca de uma década. O material ainda não foi divulgado publicamente.

A medida determina que o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) disponibilizem à família prontuários, exames, relação dos profissionais envolvidos no atendimento e outros registros relacionados à internação no Hospital de Base, em Brasília. Procuradas pelo g1, as duas entidades informaram que ainda não haviam recebido notificação oficial da decisão.

A iniciativa busca esclarecer dúvidas sobre possíveis falhas médicas durante o tratamento de Tancredo. O então presidente eleito foi internado na véspera da posse, em março de 1985, com um quadro de diverticulite, inflamação que atinge a região do intestino grosso. Ele morreu em 21 de abril daquele ano, após passar por uma série de procedimentos médicos e apresentar complicações.

A busca por acesso aos documentos ganhou força em 2010, com a publicação do livro O paciente, do escritor Luís Mir. Com autorização da família, o autor investigou o período de internação e apontou possíveis irregularidades nos procedimentos adotados pela equipe médica. A partir desse levantamento, os familiares solicitaram aos conselhos de medicina a liberação dos registros, mas tiveram o pedido negado sob a justificativa de proteção ao sigilo da relação entre médico e paciente.

Diante da negativa, a família recorreu à Justiça. Segundo a advogada Juliana Porcaro, representante dos familiares, a intenção é compreender as circunstâncias do atendimento e ter acesso, inclusive, aos registros de um processo administrativo que resultou em advertências aplicadas a médicos envolvidos no tratamento.

As suspeitas de falhas apontadas no livro e pela família estão relacionadas a quatro aspectos principais. O primeiro envolve a realização de uma cirurgia de emergência. Especialistas consultados pelo escritor questionaram a necessidade de intervenção imediata, uma vez que procedimentos para tratar a diverticulite costumam ser eletivos, ou seja, podem ser programados enquanto o paciente recebe outros cuidados.

Outro ponto diz respeito às condições da cirurgia. Mais de 30 acompanhantes teriam permanecido na sala durante o procedimento, prática apontada como incompatível com as normas de segurança. A família também busca esclarecer as circunstâncias de uma advertência aplicada pelo CRM-DF a médicos envolvidos no atendimento, cujo motivo não foi detalhado. O quarto questionamento envolve possíveis falhas nos protocolos de recuperação, que, segundo a investigação de Luís Mir, poderiam ter contribuído para as complicações clínicas.

Uma das imagens mais conhecidas daquele período mostra Tancredo sentado ao lado de integrantes da equipe médica, dias antes de morrer. Segundo os questionamentos apresentados pelo escritor, a posição em que o presidente eleito aparece na fotografia seria incompatível com os cuidados exigidos após a cirurgia, considerando a região do corpo em que o procedimento foi realizado.

Após apresentar hemorragia e outras complicações, Tancredo foi transferido do Instituto do Coração (Incor) em estado grave. A advogada Juliana Porcaro também relatou que, diante do agravamento do quadro, os médicos brasileiros teriam chamado o especialista norte-americano Warren Zapol para avaliar o paciente. Segundo ela, a equipe não teria se sentido segura para declarar a morte sem a avaliação do profissional.

Para a família, a divulgação dos documentos ultrapassa o interesse particular dos parentes e tem importância para a compreensão de um episódio decisivo da história política brasileira. A advogada afirma que os registros podem esclarecer por que médicos do próprio conselho aplicaram advertências aos profissionais responsáveis pelo atendimento e quais condutas foram consideradas inadequadas.

Juliana também relatou ter conversado com o ex-presidente José Sarney, vice na chapa de Tancredo e responsável por assumir a Presidência após a morte do titular. Segundo a advogada, Sarney confirmou que havia preocupação com a possibilidade de assumir o cargo naquele contexto, diante das incertezas sobre a aceitação da posse.

A morte de Tancredo ocorreu em um momento de transição política. Ele havia sido eleito presidente pelo Colégio Eleitoral em janeiro de 1985, encerrando duas décadas de governos militares, mas não chegou a tomar posse. Com sua morte, Sarney assumiu a Presidência e deu continuidade ao processo de redemocratização do país. A expectativa da família é que os documentos agora liberados ajudem a esclarecer as circunstâncias médicas que marcaram aquele episódio.