Sonhei que um amigo sofria um acidente de carro. Acordei na madrugada com um único pensamento: precisava mandar uma mensagem para ele, pedindo que tomasse cuidado. O problema é que esse "amigo" é também um ex-paquera, que poderia enxergar aquele "aviso" como uma desculpa para puxar uma conversa repleta de segundas intenções. Rezei para que aquele sonho não se tornasse realidade e voltei a dormir. Quando acordei novamente, estava decidida a não enviar a mensagem.
Relendo textos antigos, me deparei com um que parecia uma declaração de amor. Na época que o escrevi, talvez até estivesse interessada em alguém, mas, como toda escritora, havia colocado ali algumas palavras a mais que romantizavam a situação dando um olhar mais poético àquela realidade. Quem me conhece, bem como a história relatada, entende que ali se trata apenas de literatura, apesar de baseada em fatos reais. Mas quem não tem essa visão, o que poderia pensar?
Em uma outra situação, estava me despedindo de uma amigo após um passeio, quando ele tentou me beijar. Me afastei dele, totalmente confusa, pensando em que momento aquela amizade havia caminhado naquela direção. Ele tentou novamente e mais uma vez eu recuei, dizendo claramente que não queria. Quando ele finalmente foi embora, senti raiva. Dele e de mim. Me questionava se eu havia passado alguma mensagem errada, recapitulando todos os momentos e conversas que tive com ele, para entender onde eu poderia ter errado.
Porém, na comunicação, você só pode controlar a mensagem que passa e não a maneira como ela é interpretada pelo outro. E essa interpretação depende de questões muitas vezes subjetivas, como é o caso do meu amigo. Como ele já estava interessado em mim, toda aproximação de amizade era interpretada como retribuição dos seus sentimentos que iam muito além do que ele demonstrava como amigo. Demorei um tempo para entender que o problema na nossa comunicação não havia sido a mensagem passada, mas sim a interpretação baseada em expectativas distantes da realidade.
Na faculdade de comunicação, uma das primeiras coisas que aprendi é que "tudo comunica". O jeito como você fala. A forma como você se veste. Até o silêncio comunica. Todos os elementos expressam uma mensagem, cujo significado vai depender do contexto onde estão inseridos. Já a interpretação desses elementos, sejam eles textuais ou visuais, vai depender não apenas da clareza com que a mensagem for passada como também do conhecimento prévio daquele que a recebe. O grande desafio é se fazer entender.
Se o contexto já dá sinais de que a mensagem vai sair "truncada", a melhor opção é não arriscar uma interpretação errada. Agora, se a mensagem é clara e possíveis erros de interpretação não representam grandes danos, não há porque se prender à necessidade de controle do resultado final. Em todo caso, se a comunicação deixou dúvidas, há ainda a possibilidade de perguntar ao outro o que de fato ele quis dizer. Para quem não sabe, é assim que são feitos os diálogos. E, esses sim, são ótimas ferramentas para se fazer entender.