Tenho percebido, nas conversas ao meu redor, uma coisa que me interessa talvez mais do que saber em quem cada pessoa vai votar: quantas pessoas mudaram de posição política nos últimos anos.
Pessoas que eu conhecia de um jeito passaram a pensar de outro. Algumas mudaram radicalmente. Outras continuam defendendo os mesmos valores, mas já não acreditam nas mesmas pessoas. Há quem tenha trocado de lado. Há quem tenha desistido dos lados.
E fiquei pensando: quando mudamos politicamente, o que exatamente mudou dentro de nós?
Foram as nossas ideias?
Os nossos princípios?
As nossas prioridades?
Ou foram as circunstâncias da vida que mudaram a maneira como enxergamos o mundo?
Talvez uma eleição seja um dos maiores espelhos de uma sociedade. Não porque mostre apenas quem ganhou ou perdeu, mas porque revela, naquele determinado momento, aquilo que estamos desejando, temendo e rejeitando.
Nestes dias, olhando para alguns livros (que recomendo a leitura) como as Democracias Morrem, Os Engenheiros do Caos, Psicologia das Massas, Eichmann em Jerusalém, O Segundo Sexo, A República das Milícias, Como Ser um Ditador, tive a sensação de que, apesar de tão diferentes, todos conversavam silenciosamente sobre uma mesma questão:
o que faz uma sociedade mudar?
E talvez uma pergunta ainda mais desconfortável:
o que faz cada um de nós mudar?
Foi então que pensei sobre um filme que assisti recentemente (que também recomendo), O Aniversário.
A história começa quase inocentemente. Uma celebração familiar. Uma mesa. Pessoas que se conhecem, que se amam, que carregam histórias em comum.
Até que uma ideia começa a crescer do lado de fora daquela casa.
Primeiro, como opinião.
Depois, como divergência.
Depois, como identidade.
E, aos poucos, aquilo que parecia ser apenas uma discussão política começa a mudar a maneira como aquelas pessoas enxergam umas às outras.
Foi essa imagem que ficou comigo.
Porque talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em uma escala muito maior.
A política deixou de ser apenas uma escolha sobre quem vai governar. Para muita gente, ela passou a ser uma escolha sobre quem somos.
E quando uma opinião política se transforma em identidade, qualquer discordância pode começar a parecer uma ofensa pessoal.
É muito fácil olhar para o outro e perceber a mudança.
“Ele era de direta e agora é de esquerda.”
“Ela sempre foi conservadora e agora defende pautas progressistas.”
“Ele votava em determinado candidato e hoje não consegue mais defendê-lo.”
Mas por que tratamos a mudança de opinião como se fosse necessariamente uma falha de caráter?
A vida muda nossas perguntas.
Mudam as experiências, as perdas, os encontros, as responsabilidades, os lugares onde vivemos, as pessoas que conhecemos. Mudam também aquilo que passamos a considerar urgente.
Quem aos 20 anos enxergava o mundo de determinada maneira talvez aos 50 tenha aprendido coisas que ainda não conhecia.
Mudar de opinião não deveria ser uma vergonha. Talvez seja uma das formas mais honestas de pensar.
O problema começa quando não mudamos de ideia, mas apenas de tribo.
Freud já tentava compreender a força das massas. Décadas depois, os algoritmos aprenderam a fazer algo ainda mais sofisticado: descobrir exatamente aquilo que nos irrita, nos assusta e nos faz permanecer dentro de um grupo.
Os Engenheiros do Caos mostra esse mecanismo de maneira perturbadora.
Não é preciso convencer alguém de tudo.
Basta oferecer um inimigo.
Basta produzir indignação.
Basta dizer que “eles” querem tirar de você aquilo que é seu.
E, de repente, o mundo se divide entre nós e eles.
Talvez seja por isso que O Aniversário tenha me incomodado tanto.
Porque o filme mostra aquilo que os livros analisam em escala política acontecendo em escala íntima.
Quando o “nós contra eles” entra dentro de uma família, já não existe um lugar neutro para sentar à mesa.
O irmão deixa de ser apenas irmão.
A amiga deixa de ser apenas amiga.
Até o pai deixa de ser apenas pai.
Passam a representar alguma coisa.
E quando alguém passa a representar alguma coisa, fica muito mais difícil enxergá-lo como pessoa.
Talvez seja esse o verdadeiro perigo da polarização.
Não é discordar.
É deixar de enxergar humanidade no outro.
É quando já não queremos compreender quem pensa diferente. Queremos apenas derrotá-lo.
É aí que Como as Democracias Morrem se torna tão atual.
Democracias não dependem apenas de eleições. Dependem de limites, instituições, regras e, principalmente, da capacidade de conviver com quem pensa diferente sem precisar destruí-lo.
E isso exige uma coisa que parece cada vez mais rara: coerência.
Ter princípios é fácil quando eles favorecem o nosso lado.
Difícil é mantê-los quando favorecem o outro.
É fácil defender liberdade quando ela protege a nossa opinião.
É fácil defender democracia quando o nosso candidato vence.
É fácil condenar o autoritarismo quando ele está do outro lado.
Difícil é fazer tudo isso quando somos nós que estamos sendo contrariados.
Talvez seja aí que uma eleição se transforme em um teste de caráter coletivo.
Não apenas pelo resultado.
Mas pela maneira como recebemos o resultado.
O que fazemos quando perdemos?
O que fazemos quando ganhamos?
E o que estamos dispostos a fazer para que o nosso lado vença?
Essas perguntas me parecem muito mais importantes do que simplesmente descobrir quem terá mais votos.
Porque uma democracia pode sobreviver a uma eleição.
O que ela não sobrevive facilmente é à transformação permanente do adversário em inimigo.
Talvez por isso, depois de uma eleição, a pergunta mais interessante não seja apenas:
“Quem ganhou?”
Talvez seja:
“O que esse resultado diz sobre nós?”
O que estamos querendo?
O que estamos temendo?
Em que deixamos de acreditar?
O que estamos dispostos a aceitar?
E, principalmente:
quais dos nossos princípios continuariam sendo princípios se o candidato que defendemos estivesse do outro lado?
Talvez amadurecer politicamente não seja aprender a escolher um lado.
Talvez seja aprender a não perder a si mesmo quando escolhemos um.
Porque mudar de opinião é humano.
Mudar de posição também.
Reavaliar nossas certezas é, talvez, uma das formas mais bonitas de inteligência.
Mas existe uma fronteira que deveríamos cuidar para não ultrapassar: aquela em que deixamos de mudar de ideias e começamos a mudar de princípios apenas para continuar pertencendo.
No filme, uma comemoração familiar vai se transformando diante dos nossos olhos.
Na vida real, talvez a transformação seja muito mais silenciosa.
Começa numa conversa.
Passa para um grupo de WhatsApp.
Chega à mesa de jantar.
Entra nas amizades.
E, quando percebemos, já não estamos mais discutindo política.
Estamos discutindo quem tem o direito de pensar diferente de nós e, em alguns casos, até quem merece continuar sentado à nossa mesa.
Talvez seja justamente aí que livros, filmes e eleições se encontrem.
Todos, de maneiras diferentes, nos fazem a mesma pergunta:
até onde podemos ir em nome daquilo em que acreditamos sem deixar de ser aquilo que acreditávamos ser?
E talvez essa seja a pergunta que vale a pena levar para o segundo turno.
Não apenas quem vai governar o Brasil.
Mas que tipo de Brasil estamos ajudando a construir quando escolhemos um lado.
E, talvez mais importante ainda, que tipo de pessoa estamos escolhendo ser enquanto fazemos essa escolha.
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