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Salvador e Região Metropolitana registram um incêndio a cada três horas

Números de janeiro e fevereiro tiveram aumento de 52% em relação a 2018

21/03/2019 07h56 Atualizada há 8 anos atrás
Por: Redação Fonte: Correio 24h
Salvador e Região Metropolitana registram um incêndio a cada três horas

Ligar vários aparelhos eletrônicos utilizando adaptadores de tomadas, jogar bituca de cigarro pela janela ou despejar o resto do material usado na obra do quintal, próximo à vegetação. São hábitos simples e até parecem inofensivos, mas podem contribuir para que sua casa ou estabelecimento pegue fogo. Só nos dois primeiros meses deste ano, Salvador e Região Metropolitana já registraram 505 incêndios - em média, um a cada três horas.

Três dos mais recentes aconteceram nos últimos dois dias. Anteontem, um incêndio destruiu 60% da fábrica de colchões Ortobom no bairro de Valéria, em Salvador - e os bombeiros passaram a madrugada e  o dia de ontem fazendo o rescaldo. Ontem à noite, as chamas consumiram boa parte de um galpão de reciclagem em Águas Claras. Em São Francisco do Conde, houve  um incêndio em vegetação ao lado da Refinaria Landulfo Alves.

Só em março, conforme apurou a reportagem do CORREIO, já são oito. Se considerados os 505 casos contabilizados pelo Corpo de Bombeiros nos meses de janeiro e fevereiro deste ano, nota-se aumento de 52,5% em relação aos 331 dos dois primeiros meses de 2018.

Os dados correspondem a incêndios em estabelecimentos comerciais ou indrustriais, em casas, prédios e em vegetação. A maior parte deles, diz a corporação, é causada por maus hábitos. E tudo indica que essas práticas têm aumentado.

Se em fevereiro de 2018, o Corpo de Bombeiros registrou 171 incêncios, o número em 2019 saltou para 243. O mês de janeiro deste ano, que registrou 262 incêndios, também superou os 160 no mesmo mês de 2018. No interior do estado, em janeiro de 2019, os municípios da Bahia foram vítimas do fogo 169 vezes. Já em fevereiro, os casos somam 458, quase o triplo.

Fatores


Responsável pela coordenação da equipe que trabalha no combate ao fogo da fábrica de colchões em Valéria, o major Ramon Diego Diniz explicou ao CORREIO que a maior parte dos incêndios é  causada por uma junção de fatores que, em geral, têm origem nos hábitos das pessoas em suas comunidades, incluindo os registros em vegetações.

O desmatamento, acúmulo de lixo, combustíveis descartados em locais inapropriados - como áreas abertas e de mata - são as ações imprudentes que, segundo os bombeiros, costumam gerar os fatores de risco. Há, ainda, a questão das mudanças climáticas, que podem resultar na diminuição da umidade.

"Além disso, um grande número de pessoas em uma mesma comunidade também colabora para os incêndios. Se você tem mais gente, tem mais hábitos e, consequentemente, a imprudência aumenta. Por isso, é indispensável que as pessoas sejam educadas. Existe a falta de uma cultura prevencionista neste sentido", comentou o major.

Vegetação


Diferente do que algumas pessoas pensam, quando uma área de mata pega fogo, não significa apenas que as folhas, secas demais sob o sol quente, aqueceram até virar chama. Especialista em combate a incêndios de grandes proporções, o major Ramon Diego listou materiais que podem contribuir para deflagrar o fogo.

"Uma pessoa realiza uma obra em casa ou no estabelecimento. Ela pega aquele resto de material e descarta em área apropriada? Não. As pessoas jogam, em geral, na vegetação. Elas fazem isso com fluídos, como plástico, papelão, madeira, álcool, coisas que são utilizadas em mudanças ou construções, e até mesmo lixo", cita.

Aliado ao entulhamento de objetos e materiais, em Salvador, especificamente, um fator entra na receita perfeita para um incêndio: o calor. Embora não seja o principal motivo, é um potencial acelerador do processo.

E calor, aliás, é algo que o soteropolitano tem sentido na pele, literalmente. A meteorologista do Inema Maryfrance Diniz explica que esse Verão foi mais quente por conta do El Niño. “Esse fenômeno aquece as águas do Pacífico, inibindo a formação de nebulosidade por aqui. Assim, os dias ficam mais claros e, consequentemente, mais quentes, sem chuva”, disse.

Segundo dados do instituto, no Verão deste ano, a temperatura média na capital chegou a 34°C, quando historicamente a média para o período não passa de 30°C.

Mesmo assim, segundo o Corpo de Bombeiros, apenas 5% dos incêndios em vegetação têm causas naturais.

 "A responsabilidade das pessoas é ainda maior que o calor. É claro que a baixa humidade e os ventos fortes pode ajudar a alastrar, mas todos os casos são provenientes das ações humanas", afirmou.

Casas e estabelecimentos


A vela em devoção ao santo preferido, o carregador de celular que é ligado na mesma tomada que a TV e o computador também são ações que, se evitadas, podem ser determinantes na prevenção de um incêndio em casas e estabelecimentos comerciais.

Salvador e RMS registraram, em janeiro e fevereiro de 2019, 35 incêndios em ambientes fechados, seis a menos que no mesmo período de 2018. Em locais que não são abertos, no entanto, a possibilidade que a fumaça tem de causar danos diretos às pessoas é maior e pode ocasionar mortes.

"A grande maioria dos incêndios nas resdências está relacionada à sobrecarga na rede elétrica e falta de manutenção. obrigatoriamente é necessário trocar a fiação a cada cinco anos, mas ninguém faz isso", afirmou o major Ramon Diego. 

Ele comentou, ainda, que o acúmlo de material inflamável no interior das estruturas ou mesmo objetos decorativos e até planelas esquecidas no fogão, são um perigo iminente.

"As pessoas devem ficar atentas a esses simples atos, que podem ocasionar grandes incêndios. Por exemplo, se você coloca, em um T (adaptador), celular, televisão, e outros aparelhos, com um tempo, dá pra observar que a estrutura do material, que é de plástico (T) vai ser deformada pela quentura, porque eles vão sobrecarregar e é isso que vai causar o curto-circuito". 

Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros


De acordo com o CBM-BA a fábrica da Ortobom não tinha o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). "Todos os estabelecimentos tem que estar de acordo com a norma dos bombeiros, absolutamente, devem estar de acordo com a norma e a legislação do corpo de bombeiros. Isso inclui as condições de acesso, o número de extintores, o sistema de combates internos e outras ações emergenciais".

O CORREIO procurou a Ortobom e questionou sobre a ausência da licença, mas a empresa não se manifestou até o momento. 

Em resumo, a corporação explicou que todos os estabelecimentos, seja ele de grande ou pequeno porte, precisa passar por uma avaliação de bombeiros especialistas, para, então, montar um plano de urgência necessária em casos de incêndio. 

O AVCB é a avaliação que checa os itens de segurança necessários, considerando o tamanho e as condições da estrutura. Um estabelecimento que tem X metros quadrados a mais que o outro, pode necessitar de uma quantidade maior de saídas emergenciais, por exemplo.

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