No contexto de pandemia, as universidades não serão as mesmas de sempre. Salas de aula lotadas, eventos presenciais nos campi e até bebedouros com sistemas de torneira com jato de água, aqueles cuja ingestão é realizada diretamente com a boca do usuário, estão fora de cogitação. Para continuar a fazer educação superior pública, o jeito é se adaptar.
Na Bahia, a Universidade Estadual (Uneb) saiu na frente com a elaboração de uma série de recomendações para o planejamento do futuro retorno das atividades presenciais. Publicado na última quinta-feira (11), o documento foi feito por uma comissão instituída pela universidade para acompanhar e orientar as condutas institucionais acerca da pandemia do covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.
“Acho que saímos na frente pelo caráter multicampi da Uneb, que deve tornar o nosso desafio maior do que o das outras universidades”, disse o presidente da comissão, o professor de medicina Paulo Barbosa. Além dele, outras oito pessoas compõe a comissão, que não possui caráter deliberativo. As recomendações feitas ainda serão apreciadas pelo Conselho Universitário (CONSU), este sim que vai elaborar as diretrizes para o futuro retorno, que pode ser a longo prazo, inclusive.
“Por que a universidade fez isso? Para que a comunidade acadêmica entenda que existem exigências para um futuro retorno. Não pode ser de qualquer jeito. Tem que usar máscara, acompanhar o fluxo de pessoas, isolar os bebedouros, desinfectar constantemente o espaço físico, evitar o uso do elevador... são muitas recomendações” - confira a lista completa no final do texto -, disse a representante da comissão, a professora de pedagogia e assessora chefe da reitoria, Dayse Lago de Miranda.
Para a comissão, essa volta às aulas presenciais deve ser gradual, sendo ainda estimulada as atividades remotas, mediadas por tecnologias online, para os componentes curriculares teóricos. Isso não significa que somente as aulas práticas, aquelas que precisam ser feitas presencialmente, como em laboratório, vão voltar, a primeiro momento. “São os colegiados que devem definir quais as disciplinas que podem voltar e quais os professores que podem ministrar aulas online”, disse Dayse.
A aluna de enfermagem Bianca Teixeira, 23 anos, pensa que nem todos os colegas tem condições de participar dessas atividades digitais. “Eu não vejo a possibilidade de termos aulas online, pois a universidade tem vários campi, alunos de realidades muito diferentes, com acesso ou não a internet e a um ambiente de estudo adequado”, argumentou.
Esse não é o caso da estudante Elaine Costa, 22 anos, que está no último semestre do curso de Relações Públicas. Para ela, a possibilidade de ter aulas online é animadora. “Eu vejo que a minha turma tem condições de ter esse acompanhamento digital, pois nesse período do curso a gente só tem duas disciplinas, uma é a orientação do trabalho de conclusão de curso, que pode ser feita por uma plataforma adequada. Mas sabemos que nem todos da universidade possuem a mesma realidade”, disse.
“O conselho universitário tem outras duas comissões que pensam o retorno das atividades sob a perspectiva acadêmica e administrativa. A gente apenas norteia o trabalho delas com as recomendações feitas. Cabe à comissão acadêmica pensar como vai ser a acessibilidade digital”, disse o professor Paulo.
Outras medidas
Outra recomendação da comissão que orienta as ações da Uneb acerca da pandemia é que as atividades realizadas na universidade permitam que seja mantido dois metros de distanciamento entre as pessoas. Isso vai impactar diretamente na capacidade das salas de aulas, que terão uma expressiva redução.
“Por isso, temos os arquitetos e engenheiros que estão pensando nessa nova configuração da sala de aula. Temos salas que chegam a caber 50 alunos. Outras são bem menores. Todas devem ser repensadas e os colegiados vão fazer também esse papel de definir a quantidade de estudantes por turma”, disse Dayse.
Mais medidas foram recomendadas com o foco na comunidade acadêmica, como o mapeamento de servidores e estudantes que integram grupo de risco. Os identificados devem desenvolver suas atividades laborais em home office. “Até os estudantes em grupo de risco devem ter a possibilidade de realizar a atividade remota. Nossa ideia é que todo o grupo de risco não esteja na universidade”, disse Dayse.
Mesmo assim, a comissão organizadora das recomendações não arrisca dizer uma data para a volta das atividades presenciais. “Nós já estamos observando que a curva de óbitos está achatada, mas a insegurança que vivemos é a de que a população relaxou muito o isolamento social. Então, podemos ter um prolongamento do pico da curva. Sem a deflexão, não há como voltar”, disse o professor de medicina.
Fundada em 1983, a Uneb é a maior instituição pública de ensino superior da Bahia, presente geograficamente em todas as regiões do Estado. São 29 departamentos instalados em 24 cidades baianas, inclusive a capital, onde fica a administração central. No total, a Universidade tem mais de 30 mil alunos.
Confira todas as medidas recomendadas pela comissão da instituição:
Constituição de um Comitê Técnico de Prevenção da COVID-19
O CORREIO procurou as outras universidades do estado para saber como está o processo de retomada das atividades presenciais, mas nenhuma emitiu algum protocolo ou recomendação, como feito pela Uneb.
A Ufba, UFRB, Uefs, Ufsb estão na fase de montagem desse protocolo. Já a Univasf não está fazendo qualquer discursão que estabeleça regras para a retomada das atividades acadêmicas presenciais. A reportagem não conseguiu retorno ou o contato da Unilab, Uesc, Uesb e Ufob.
Já Carlos Joel, presidente da Associação Baiana de Mantenedoras de Ensino Superior (Abames), afirmou que tem mantido contato com a prefeitura de Salvador e encaminhou sugestões para a retomada das atividades. No entanto, o representante não possui alguma data para o retorno presencial dessas aulas.
“O diálogo está bem avançado, criamos uma comissão de saúde de todas as instituições de Salvador, com profissionais que se reuniram diversas vezes e elaboraram esse documento. A prefeitura está inclusive adotando parte desse instrumento como protocolo de orientação para retorno das atividades”, disse.
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