O comandante do Bope, tenente-coronel Marcelo Corbage, afirmou ao Ministério Público do Rio de Janeiro que o confronto da Megaoperação Contenção, em 28 de outubro, ocorreu por causa de uma emboscada do Comando Vermelho, contradizendo a declaração do governador Cláudio Castro, que havia dito que a atuação na mata fazia parte da estratégia para encurralar os criminosos.
Na coletiva realizada enquanto as forças de segurança ainda trocavam tiros com traficantes no alto da Vacaria, na Serra da Misericórdia, Castro afirmou que os confrontos aconteciam majoritariamente em área de mata porque havia sido planejado que os criminosos fossem direcionados para essa região, o que, segundo ele, reduziria riscos à população. Corbage relatou ao MPRJ que o enfrentamento resultou de uma “estratégia até então desconhecida” do tráfico.
“A intenção era preparar uma emboscada”, disse Corbage no depoimento prestado na segunda-feira, 10 de novembro. O MPRJ enviou ao STF documentação sobre a operação, que resultou em policiais civis feridos e mortos. O g1 solicitou posicionamento ao Palácio Guanabara e aguardava resposta até a última atualização.
O comandante explicou que o planejamento inicial da operação foi comprometido por uma “armadilha” montada pelos criminosos, o que coincide com imagens de drone que registraram traficantes fortemente armados se deslocando para a área de mata, alguns com camuflagens semelhantes às usadas em ambientes de selva. Corbage afirmou que policiais civis avançaram devido à pouca resistência inicial e acabaram atraídos para a emboscada.
Segundo ele, a reação do grupo criminoso foi diferente do padrão registrado em ações anteriores. “Normalmente há um comportamento de fazer um primeiro enfrentamento e, em seguida, empreender fuga, que desta vez, entretanto, os criminosos resistiram e sustentaram o fogo de maneira nunca vista”, afirmou. Ele disse ainda que a operação deixou de ser destinada ao cumprimento de mandados e se tornou uma ação de resgate devido ao alto número de policiais atingidos.
O comandante relatou que os dois policiais do Bope mortos em 28 de outubro participavam do resgate de agentes civis feridos e que toda a dinâmica planejada para a cooperação entre as forças precisou ser alterada diante das circunstâncias encontradas na mata.
Corbage também contradisse a explicação sobre o chamado “Muro do Bope”. No dia seguinte à operação, o secretário da PM, coronel Marcelo de Menezes, afirmou que agentes foram posicionados no alto da montanha para formar uma linha de contenção que empurraria os criminosos para o topo. Ao MPRJ, Corbage disse que o objetivo inicial não era ocupar a Vacaria, mas manter um perímetro de segurança que impedisse a circulação de criminosos entre diferentes comunidades.
Ele afirmou que equipes da Core e do Batalhão de Choque deveriam atuar na Vacaria, mas, diante dos ataques a policiais civis, decidiu intervir no resgate. Negou que o Bope tenha utilizado a tática conhecida como “tróia” e disse que os traficantes já estavam entrincheirados em bunkers na Serra da Misericórdia.
O comandante explicou que o termo “Muro do Bope” se referia à atuação distribuída em diferentes comunidades para impedir que criminosos se deslocassem e se unissem ao grupo que estava na Vila Cruzeiro. Segundo ele, ao Bope cabia atuar na Serra da Misericórdia, no Complexo do Alemão.
Em depoimento ao MPRJ, o delegado André Luiz de Souza Neves, diretor do Departamento-Geral de Polícia Especializada, afirmou que não havia previsão de ingresso na mata por parte da Polícia Civil, mas que os policiais acabaram avançando pelas circunstâncias encontradas. O comandante da Core, delegado Fabrício Oliveira, também negou que o estado tenha armado uma emboscada e reforçou que a “armadilha” foi preparada pelos criminosos. Ele destacou que agentes foram baleados em poucos minutos e que dois policiais civis morreram com tiros na cabeça.
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