Há algo curioso acontecendo à nossa volta. Uma mudança silenciosa, porém extremamente visível, vem redesenhando a forma como nos apresentamos ao mundo. No último feriado, estive hospedada em um hotel tradicionalíssimo. Daqueles que ainda preservam o encanto da hotelaria clássica, onde cada detalhe é pensado, o serviço é quase coreografado e a experiência do hóspede é tratada com o cuidado de quem entende que acolher é uma arte. Um lugar onde a gastronomia conforta, os ambientes convidam à permanência e o tempo parece desacelerar, como se estivéssemos dentro de um lindo filme, daqueles bem clássicos.
Mas, em meio a esse cenário quase atemporal, algo destoava. A maioria dos hóspedes parecia desfilar, ao longo do dia, em uma espécie de uniforme contemporâneo: a roupa de ginástica. E não, não havia uma programação esportiva intensa que justificasse. Não, não era sobre uma aula de yoga ao nascer do sol, uma caminhada nas montanhas ou um treino funcional entre uma atividade e outra. Era simplesmente a escolha estética predominante.
No café da manhã, no almoço, no chá da tarde e também no jantar. Em eventos mais elaborados e até em momentos que pediam, ainda que de forma sutil, um certo ritual de vestir-se. Homens, mulheres e até senhores. Todos inseridos nessa nova lógica onde o conforto parece ter ultrapassado qualquer outro código. E então me peguei pensando sobre o tal “dress code” código de vestimenta, que hoje já não é mais imposto, mas também parece ter sido completamente dissolvido.
Mas há um ponto importante que precisa ser reconhecido. Nunca nos movimentamos tanto. Nunca estivemos tão conscientes da importância da atividade física para a saúde, para o bem-estar e para a longevidade. Incorporar o exercício à rotina deixou de ser exceção e passou a ser prioridade. E isso, sem dúvida, é uma conquista valiosa do nosso tempo. Disso eu não tenho a menor dúvida!
Talvez, em alguma medida, essa estética esportiva que invadiu os espaços também seja reflexo desse novo estilo de vida. Um corpo em movimento, uma agenda mais dinâmica, uma busca legítima por equilíbrio.
Ainda assim, fica a reflexão. Será que estamos assistindo ao fim das pequenas cerimônias do cotidiano?
Porque vestir-se nunca foi apenas sobre cobrir o corpo. Sempre foi também sobre intenção. Sobre respeito ao ambiente, à ocasião e, de certa forma, de certa forma não, melhor, às outras pessoas que compartilham aquele espaço.
Havia algo de especial em escolher uma roupa para um jantar, mesmo que simples. Em sinalizar, ainda que discretamente, que aquele momento merecia uma pausa, uma atenção diferente, um certo cuidado, uma preocupação. Hoje, a praticidade venceu. E junto com ela, veio uma estética que se espalha com rapidez impressionante. Das academias para os aeroportos, dos aeroportos para os restaurantes, dos restaurantes para hotéis sofisticados. Uma uniformização que ignora contextos.
Não se trata aqui de um julgamento, de forma alguma. O conforto é, sem dúvida, uma conquista dos nossos tempos. Tecidos tecnológicos, modelagens inteligentes e a liberdade de movimento são avanços bem-vindos.
Mas talvez a reflexão seja outra.
Quando tudo é apropriado para qualquer ocasião, será que ainda conseguimos perceber o que torna cada momento único?
Talvez o verdadeiro risco não esteja na roupa de ginástica em si, mas na perda do gesto de se preparar para viver algo. De marcar, mesmo que simbolicamente, a diferença entre os momentos do dia. Porque no fim, não é sobre elegância no sentido clássico. É sobre presença.
E presença, assim como o de se vestir, também é uma escolha.
Talvez o verdadeiro luxo, hoje, esteja no discernimento.Em um tempo em que tudo parece permitido e confortável, escolher como se apresentar ao mundo passa a ser menos sobre regra e mais sobre consciência. Não se trata de abrir mão da leveza, da praticidade, do conforto ou do corpo em movimento, mas de não perder a capacidade de perceber o valor simbólico dos gestos das escolhas. Inclusive o de se vestir.
Há uma sutileza em entender que cada ocasião carrega um convite invisível. Um jantar, um encontro, até mesmo um café da manhã em um lugar simples podem pedir, não formalidade, mas presença traduzida em intenção. E intenção não pesa. Ela não aprisiona. Pelo contrário, ela revela.
Talvez possamos, sim, circular com liberdade entre o conforto e o ritual, sem que um anule o outro. A roupa de ginástica pode continuar sendo aliada de um estilo de vida mais saudável e ativo, mas não precisa ser a única linguagem possível para todos os momentos do dia.
Porque quando tudo se torna igual, perde-se o contraste. E sem contraste, perde-se também a capacidade de sentir o que torna cada instante singular. No fim, vestir-se bem, hoje, talvez seja menos sobre estética e mais sobre percepção.E perceber, em tempos tão acelerados, já é por si só um gesto raro.
Um excelente mês de percepções e reflexões!
Nos vemos no próximo mês!
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