Segunda, 05 de Outubro de 2026 10:43
(71) 99663.6360
Entretenimento Game Over

Sony encerrará produção de jogos em mídia física a partir de 2028

Empresa passará a comercializar novos títulos do PlayStation exclusivamente em formato digital; mudança gera preocupações entre consumidores, lojistas, colecionadores e especialistas em preservação dos games

12/07/2026 11h53
Por: Luana Velloso Fonte: Redação
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

A Sony anunciou que deixará de produzir jogos em mídia física para o PlayStation a partir de janeiro de 2028. Com a mudança, todos os novos lançamentos da plataforma serão comercializados exclusivamente em formato digital, por meio da PlayStation Store ou de códigos vendidos por varejistas autorizados. Os títulos lançados antes da mudança continuarão compatíveis com os consoles que utilizam discos.

O anúncio representa uma das maiores transformações da história recente da indústria dos videogames e impacta diretamente consumidores, colecionadores, lojistas e o mercado de jogos usados. A decisão também reacendeu o debate sobre os direitos dos consumidores em relação aos jogos digitais, a preservação da história dos videogames e o futuro dos consoles tradicionais.

Em comunicado, a empresa informou que, "a partir de janeiro de 2028, os novos jogos lançados para PlayStation estarão disponíveis para compra na PlayStation Store e em varejistas apenas em formato digital". Segundo a Sony, os jogos em disco lançados antes dessa data continuarão podendo ser utilizados normalmente nos consoles compatíveis.

A medida provocou reações no meio político. A deputada federal Erika Hilton solicitou que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) investigue a decisão da empresa. Em publicação na rede social X, a parlamentar afirmou que a comercialização exclusivamente digital levanta questionamentos sobre a posse efetiva dos jogos pelos consumidores.

Segundo Erika Hilton, na maioria dos casos, jogos digitais não são vendidos, mas licenciados aos usuários mediante pagamento. Ela argumenta que, por se tratar de uma licença de uso, as empresas mantêm a possibilidade de cancelar esse acesso, o que pode fazer com que um título deixe de integrar a biblioteca digital do consumidor mesmo após a compra.

Outro ponto levantado pela deputada é a impossibilidade de revenda ou empréstimo dos jogos adquiridos digitalmente. Para ela, o modelo fortalece o monopólio das lojas virtuais de cada fabricante de console, eliminando práticas tradicionais do mercado de jogos físicos, como a troca, a revenda e o empréstimo entre usuários.

Na plataforma PlayStation, os jogos digitais ficam vinculados à conta do usuário e podem ser instalados ou removidos conforme a necessidade. Entretanto, as licenças permanecem atreladas ao perfil da PlayStation Network. Conforme os termos de uso da plataforma, contas que permanecerem inativas por longos períodos podem estar sujeitas às regras previstas pela empresa, tema que também passou a ser discutido após o anúncio da mudança.

Os efeitos da decisão já começam a ser percebidos pelo comércio especializado. Embora a obrigatoriedade entre em vigor apenas em 2028, alguns lançamentos já não terão edição em mídia física. Um dos principais exemplos é Grand Theft Auto VI (GTA 6), considerado um dos jogos mais aguardados da década.

Em Salvador, comerciantes do setor afirmam que a mudança afetará diretamente as pequenas lojas especializadas. Proprietário da Rene Games, localizada no Relógio de São Pedro e atuando no mercado desde 2005, Reinaldo Bastos afirma que havia grande expectativa em torno das vendas de GTA 6.

Segundo ele, a ausência da versão física reduzirá significativamente as oportunidades de comercialização para pequenos estabelecimentos. "Todos nós que vendemos jogos e consoles estávamos na expectativa de venda do GTA 6, mas não teremos ele na versão física. Ou seja: o mercado vai ficar restrito a grandes lojas, como a Amazon, acabando com o comércio menor que vivia disso", afirmou.

O comerciante destaca ainda que o desaparecimento da mídia física altera uma característica histórica da cultura gamer. Durante décadas, jogadores puderam trocar, emprestar e revender cartuchos e discos, tornando os games mais acessíveis para consumidores de menor poder aquisitivo.

"Desde as fitas até os CDs, o jogador tinha a opção de trocar, revender, fazer essas trocas constantes que fazem parte desta cultura. Agora, estaremos presos na plataforma digital. Não vejo futuro nisso, tanto na visão do vendedor quanto do comprador, pois aqueles com baixa renda, que conseguem comprar com muito suor seu console, vêm até a loja comprar jogos usados, mais baratos. Não será mais possível", afirmou.

Apesar do impacto esperado, Reinaldo acredita que seu negócio continuará atraindo consumidores graças à especialização em videogames e jogos retrô. A loja comercializa equipamentos de diferentes gerações, desde Atari e Super Nintendo até consoles atuais, como o PlayStation 5.

"O bom é que meu cliente é nostálgico, gosta de poder soprar a fita, de ter aquele console da infância. Mas, como vendo jogos modernos, sentirei um pouco, sim. O jeito é se adaptar", disse.

A mudança também preocupa pesquisadores, museus e instituições dedicadas à preservação da história dos videogames. Especialistas alertam que, ao contrário dos cartuchos e discos, que podem ser preservados por décadas, os jogos digitais dependem da manutenção de servidores, contratos de licenciamento e compatibilidade tecnológica para continuarem acessíveis no futuro.

No Canadá, uma petição intitulada "Don't Kill the Discs" ("Não matem os discos") já reúne mais de 200 mil assinaturas, em sua maioria de lojistas e consumidores preocupados com os impactos da digitalização completa do mercado.

Especialistas também apontam que o fim da mídia física pode acelerar uma transformação ainda maior na indústria, reduzindo gradativamente a importância do próprio console tradicional. Atualmente, serviços de jogos por streaming já permitem acessar títulos sem a necessidade de mídia física ou mesmo de um videogame dedicado.

A Microsoft, por exemplo, mantém parceria com a Samsung para disponibilizar o Xbox Cloud Gaming diretamente em televisores inteligentes compatíveis, permitindo que usuários joguem por meio de aplicativos mediante assinatura, sem possuir um console físico.

Caso essa tendência se consolide, o mercado de videogames poderá repetir o movimento observado em outros segmentos do entretenimento. CDs deram lugar aos serviços de streaming musical, DVDs foram substituídos pelas plataformas de vídeo sob demanda e as locadoras desapareceram. No setor de games, a comercialização exclusivamente digital pode representar mais um passo nessa transformação tecnológica.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.