Ex-líder do governo no Congresso, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) utiliza dinheiro de sua cota parlamentar para pagar uma empresa que gerencia suas redes sociais, usadas como armas na guerra digital que trava com os filhos do presidente Jair Bolsonaro.
A EG Consult, sediada no Rio de Janeiro, recebe R$ 2.500 mensais da verba pública para, entre outras tarefas, administrar um grupo de Whats-App em que a deputada rebate acusações de traição e critica adversários.
Joice tem denunciado o uso de uma estrutura sediada no Palácio do Planalto para coordenar "milícias digitais" usadas contra desafetos do governo. Ela afirma que essa rede, que passou a tê-la como alvo e seria chefiada pelos filhos de Bolsonaro, teria 20 perfis no Instagram alimentando uma rede de cerca de 1.500 páginas.
A proprietária da EG Consult, Elisa Gomes de Oliveira de Morais, é administradora e criadora do grupo de WhatsApp "Joice, eu apoio!", parte da estrutura de comunicação da deputada.
Esse serviço não aparece discriminado nas notas fiscais emitidas até o mês passado pela EG Consult para receber o dinheiro da cota da deputada. As notas citam "geração de materiais de ordem gráfica e multimídia, gerenciamento, atendimento e suporte aos usuários das plataformas de comunicação utilizadas pela deputada federal", e mencionam Facebook, Instagram, YouTube e Twitter.
A cota parlamentar é uma verba da Câmara criada para custear despesas do mandato. Entre os gastos previstos está "divulgação da atividade parlamentar", segundo ato da Mesa Diretora da Câmara de 2009, que regulamentou o uso dos recursos.
O conteúdo das redes sociais de Joice, no entanto, inclui mais do que a exposição de sua atividade como deputada federal. Textos e vídeos com ataques a opositores são frequentes.
O mesmo ocorre com o grupo de WhatsApp gerenciado por Morais. Nos dias seguintes à destituição de Joice do cargo de líder do governo, a administradora postou: "Joice nunca traiu o governo. Isso é discurso de quem é membro do Gabinete do Ódio".
A referência é a uma estrutura com três assessores da Presidência -Tercio Arnaud Thomaz, 31, José Matheus Salles Gomes, 26, e Mateus Matos Diniz, 25- que seriam parte da chamada "milícia digital".
Em outro diálogo, Morais reage a um membro do grupo que chama Joice de "traidora disfarçada de justiceira".
"Não existe nenhuma traidora aqui. Que saiam [do grupo] todos os fakes e MAVs", disse ela, em referência à sigla para Militância em Ambientes Virtuais.
A administradora também postou um banner com texto em que Joice diz: "Os filhos dele [Bolsonaro] estão induzindo ele ao erro constante e enterrando o governo. Vou proteger o presidente até mesmo dos próprios filhos. Sigo lutando pelo Brasil".
O contrato com a Eg Consult foi assinado no mês de junho. Segundo a deputada, a razão foi a necessidade de prestar contas do mandato e ouvir as pessoas que a procuram.
OUTRO LADO
"São milhões de seguidores e cidadãos que precisam ser atendidos, de modo que eu, sozinha, infelizmente não tenho condições de atender a todos", afirmou a deputada federal Joice Hasselmann, por meio de nota.
Segundo a parlamentar, as postagens em redes sociais que são ataques a adversários são de sua responsabilidade. "Se eu for atacada, irei rebater. A empresa não tem nada a ver com esse tipo de conteúdo", declarou.
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