Entre evangélicos, seu PT, afinal, perdeu de lavada na eleição presidencial de 2018 –estima-se que no segundo turno tenha conquistado 3 de cada 10 votos nesse grupo.
O ex-presidente compartilhou com amigos quão impressionado ficava com a prosa dos religiosos. Passou a achar que, assim como ele, militantes petistas deveriam assistir mais às pregações na TV. Em vez de irem uma vez por mês às reuniões do PT com boas ideias, mais valia bater diariamente nessa mesma tecla de que é preciso criar elos com os evangélicos, dizia.
Na semana passada, há dois meses fora da prisão, Lula voltou ao tema em entrevista à TVT (TV do Trabalhador). Rindo, disse que quer "entrar nessa" e até tem "jeitão de ser pastor, tô de cabelo branco". Também podia ser padre, "é só a Igreja [Católica] acabar com o celibato que eu topo".
O bate-papo reverberou na legenda como um sinal para que ela se empenhasse em reconquistar uma fatia do eleitorado que já lhe foi mais amigável. A dúvida, entre evangélicos, inclusive aqueles à esquerda, é se o PT incorrerá em erros passados ao acenar ao segmento.
"Quero até fazer discussão com eles [evangélicos]. Quero mostrar quem foi o presidente que mais os tratou com respeito", afirmou Lula à TVT, para seguir com uma alfinetada em Jair Bolsonaro: "Não tem esse negócio de me batizar, não, nunca neguei que sou católico".
Já com a candidatura ao Planalto em mente, quatro anos atrás o atual presidente, também católico, foi batizado em águas de Israel pelo líder do PSC, sua sigla à época.
Na entrevista, Lula recordou ainda de um tio e um sobrinho que já foram aliados: "Pergunte para Edir Macedo, [Marcelo] Crivella, quem tratou eles melhor".
E lembrou que o eleitorado que votou em peso em Bolsonaro já foi seu. Logo, não daria para "ficar quieto" diante das fake news que contaminaram os evangélicos em 2018. "Aquela tal de mamadeira [com bicos em formato de pênis] que inventaram, e não vou citar o nome aqui porque acho grotesco, não pegaria em mim."
Se projeções indicam que evangélicos são 3 de cada 10 eleitores e podem ser maioria em pouco mais de uma década, o PT fica onde nessa história? Daí Lula orientar sua militância a tentar reverter a sangria eleitoral no nicho.
Ele está certo quando diz que evangélicos já tiveram o PT em mais alta conta.
O pastor Silas Malafaia, por exemplo, destoou dos colegas que viam em sua versão de 1989 um belzebu comunista e o apoiou. Em 2002, até na campanha ele fez uma pontinha.
O bispo Edir Macedo era um dos que o satanizou em 1989. O líder da Igreja Universal mudou de ideia e, em 2010, o jornal Folha Universal chegou a publicar reportagem para blindar Dilma Rousseff contra acusações de que ela seria uma "aborteira": "Boato do Mal".
Caso similar ao da Assembleia de Deus, maior guarda-chuva evangélico do país. Algumas de suas alas mais poderosas, como o Ministério Madureira, estiveram com Dilma antes e hoje são Bolsonaro desde criancinhas.
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