Em uma entrevista com o editor-chefe da Bloomberg, John Micklethwait, Albert Bourla, presidente da farmacêutica Pfizer e uma das pessoas mais importantes no esforço de ajudar a vacinar o mundo contra a covid-19, discute como sua empresa está enfrentando a pandemia.
John Micklethwait: Até que ponto devemos ficar assustados com as novas variantes do coronavírus?
Albert Bourla: Não devemos ter medo, mas precisamos estar preparados. Portanto, estamos nos concentrando agora em ter uma rede de vigilância muito boa, de modo que toda vez que surgir uma nova variante, possamos testar, pelo menos em laboratório, e ver se a vacina é eficaz ou não. Há algum tempo, tínhamos discutido a possibilidade de surgir uma variante para a qual a vacina não forneceria proteção. E estávamos trabalhando em um processo que nos permitirá fazer o desenvolvimento muito rapidamente. Agora começamos a implementar esse processo.
JM: Entrevistei o Dr. Anthony Fauci, que disse ser especialmente importante receber as segundas doses a tempo, porque ele achava que isso fazia uma diferença específica com as novas variantes. Você concorda?
AB: Concordo plenamente com isso. E eu diria que em todos os cenários, é preciso ter certeza de dar as segundas doses dentro do tempo recomendado pelos estudos. E em nosso estudo chegamos de 19 a 42 dias. Nesse contexto, a vacina funciona. Além desse prazo, é um risco.
JM: A vacina contra a covid-19 vai se tornar anual como a vacina contra a gripe?
AB: Eu não excluiria isso. Se você tivesse me perguntado há dois meses, eu diria que sim, é uma possibilidade. Se você me perguntar hoje, acho que é uma grande possibilidade. Ainda não sabemos, mas parece que a covid veio para ficar. Mas também parece que temos as ferramentas para fazer a covid ficar igual à gripe. Isso significa que ele não perturbará nossas vidas ou a economia. Precisamos apenas ficar muito vigilantes sobre [rastrear novas] cepas. E precisamos estar muito vigilantes quanto à vacinação de pessoas.
JM: Recentemente, você disse que se poderia obter seis doses de cada frasco entregue, de onde anteriormente as pessoas haviam falado em obter cinco. Você pode nos demonstrar essa novidade e como isso muda uma parte do cálculo?
AB: Obter seis doses de um frasco não foi uma surpresa para nós. Sabíamos disso porque estávamos envasando as ampolas. É que quando estávamos fazendo os estudos, estimamos em cinco doses. E então, quando solicitamos as aprovações, ainda não tínhamos dados para validar as seis doses. Com a Europa, perguntamos: “Vocês gostariam de esperar algumas semanas para que possamos preparar a vacina para seis doses?” E eles disseram: “Não, precisamos das aprovações agora e, então, quando tiverem os dados das seis, vocês deveriam fornecê-los para nós”. Então, tão logo tenhamos os dados para seis doses, nós os disponibilizaremos não apenas para a Europa, mas para todas as autoridades regulatórias. Isso, obviamente, é muito importante porque uma dose estava sendo perdida. Ela permaneceria no frasco e seria jogado fora. Agora, esse não é mais o caso. As pessoas estão sendo orientadas para tentar extrair a sexta dose. E elas têm os meios para isso. Já autorizamos 36 combinações de diferentes agulhas e seringas disponíveis comercialmente capazes dessa operação.
JM: Tem havido uma verdadeira confusão na União Europeia por causa de doses em quantidade suficiente. O ministro da saúde da Alemanha especulou sobre a proibição das exportações. Você e outras empresas farmacêuticas que criam vacinas na Europa não teriam permissão para exportá-las para fora da União Europeia. Qual sua reação a isso?
AB: Não acho uma boa ideia nem mesmo insinuar que alguém possa proibir a exportação de uma vacina. Precisamos ter em mente que muitos dos materiais necessários para produzir essa vacina vêm de outros países. Portanto, se um iniciar uma proibição, qual será a reação do outro? Essa seria uma situação em que todos perdem e não ajudará a Europa. O que estamos fazendo, e de forma muito colaborativa, tanto com a Comissão Europeia quanto com os outros países, é tentar aumentar drasticamente nossa capacidade de fabricação. Anunciamos que temos um plano muito sólido para produzir mais de 2 bilhões de doses ainda este ano. Eu entendo que todo mundo quer que haja alguma coisa que possa abrir a economia e salvar vidas. Eu recomendo um pouco de paciência para que possamos fazer nosso trabalho e oferecer produtos para todos. Há muita tensão porque existe medo. Portanto, vamos esperar que todos se acalmem. E todo mundo, vamos fazer nosso trabalho.
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