No dia 17 de março de 2021, João Victor de Souza, repositor de frios de um supermercado, foi o paciente número 2.021 a superar a covid-19 no Hospital Espanhol, em Salvador. O jovem, que tem apenas 24 anos e nenhum fator de risco, é um exemplo de que é possível vencer a batalha contra a doença, mas também deixa o alerta de que o vírus não escolhe idade. Ele precisou receber oxigênio e enfrentou 10 dias de internação.
“A gente pensa que não vai acontecer com a gente ou que vai ser só uma gripe. Mas, não é assim. Passar por isso que eu passei foi assustador. Muito assustador! Achava que ia morrer a qualquer momento e o desespero só piora tudo”, desabafa João Victor. Ele conta que ficou com mais de 50% do pulmão comprometido e teve muita dificuldade para respirar.
No dia 11 de março, quando chegou ao Hospital Espanhol, transferido da UPA de Arembepe, em Camaçari, onde mora, foi direto para a UTI. “Quando eu cheguei lá, nem sabia onde eu estava, então isso de estar longe de casa e da família, em outra cidade, também me deixou muito assustado. É muito ruim ficar longe de todo mundo, foi uma experiência muito solitária, muito horrível, que, com certeza, vai me marcar para o resto da vida”, diz João.
“Tinha um jovem do meu lado que parecia ser até mais novo do que eu. Ele estava muito nervoso, querendo o celular para falar com a filha. Não conseguiram acalmar ele e tiveram que intubar. Eu vi ele ser intubado, tudo isso de madrugada, foi muito assustador. São muitos aparelhos e todos eles fazem muito barulho. A gente não entende o que é aquilo, não sabe o que está acontecendo e não consegue dormir. Os enfermeiros chegaram a colocar tapumes do lado da minha cama para eu não ver o que estava acontecendo com as pessoas”, acrescenta.
O alívio só veio no último dia 17. A alta, ou melhor, a vitória, foi motivo de festa para a equipe médica. No quarto, João Victor recebeu a visita do musicoterapeuta do hospital, Marcos Barbosa. Cantando e tocando violão, o profissional acompanhou João até a entrada, onde o jovem se juntou à alegria e empolgação da mãe, da tia e também de outros profissionais de saúde da unidade, que seguravam balões compondo o número 2.021.
João Victor se recuperou, mas nem todos os jovens infectados tiveram a mesma sorte. Os casos graves de covid-19 em jovens entre 20 e 39 anos, que representam cerca de 41% da população infectada, não entram mais para as estatísticas de ocorrências raras. Segundo dados divulgados nesta terça (30) pela Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), o número de mortes mensais de baianos nesta faixa etária sofreu um aumento de 447% no comparativo de março deste ano com novembro de 2020.
Sozinha, a faixa etária de 30 a 39 anos teve uma elevação de 553% no comparativo das mortes ocorridas em novembro de 2020 e março de 2021. Já os jovens entre 20 e 29 anos tiveram um aumento de 250% no mesmo período. “Por serem a base da pirâmide da força de trabalho, naturalmente estão mais expostos a infecção, porém, ao não utilizarem a máscara, se recusarem a manter o distanciamento social e não higienizarem as mãos com frequência, agravam a situação”, afirma o secretário da Saúde da Bahia, Fábio Vilas-Boas.
O secretário ainda alerta para a sobrecarga do sistema de saúde que esse aumento pode causar. "Essa faixa etária entre 20 e 29 anos representa um grande contingente populacional. Mantendo-se essa taxa de transmissão entre os jovens, o número de pessoas precisando de UTI será superior a nossa capacidade de ofertar leitos", destaca.
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