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Caruru mais salgado: preço do quiabo sobe 95% na Bahia e encarece tradição

Nas feiras de Salvador, o cento que saía por R$ 8 já custa R$ 20; preços devem subir mais

05/09/2022 10h12
Por: Keila Abreu Fonte: Correio 24 horas
Reprodução/Desconhecida
Reprodução/Desconhecida

Quando chega setembro, você, que é baiano, já sabe: vem aí Caruru de São Cosme e São Damião, que homenageia os Ibêjis do Candomblé e os santos gêmeos da Igreja Católica. Seja da família, de um vizinho ou mesmo da casa de um amigo de outro amigo, a gente sempre fica sabendo de um banquete com xinxim de galinha, vatapá, milho branco e, claro, caruru. 

A tradição, no entanto, ficou mais cara em 2022. É que o preço do quiabo, ingrediente chave do caruru - estrela da mesa -, subiu 95% em relação ao mesmo período de 2021. De acordo com dados do Ceasa-Ba, o saco de 25 kg do item, que saía por R$ 91 no fim de agosto do ano passado, agora custa R$ 177 aos comerciantes que compram no maior centro de vendas de alimentos do estado.

Um aumento que se reflete nas barracas, como conta Roberto do Anjos, 56 anos, que vende quiabo na Feira de São Joaquim e outros pontos de Salvador há quatro décadas. Ele explica a diferença de valores. "O cento do quiabo está saindo por R$ 20, ele aumentou bastante. Antes, saía por R$ 8 ou R$ 10. Em setembro, por conta do caruru, já é comum aumentar, mas não tanto assim já no início do mês. É que onde compramos subiu muito de valor", diz o ambulante.

Na Feira da Sete Portas, outra conhecida da capital baiana pelos preços mais amistosos, não é diferente. Tem até quem faça por R$ 18 se o cliente chorar, mas, em geral, o preço do cento é R$ 20. "O quiabo, que era R$ 10 ou R$ 12, agora está de R$ 20. Porém, se conversar, tem como fazer por R$ 18. O povo pensa que a gente que aumenta a mercadoria, mas é o fornecedor que vende mais caro e tem que repassar", explica Djair Dias, 23, vendedor na feira.

Dor no bolso
Com o repasse do aumento, quem, tradicionalmente, dá o banquete vai precisar gastar mais. Na casa de Bárbara dos Reis, 49, todo ano tem caruru no início de setembro por conta de uma promessa que a mãe dela fez para o irmão. Como a matriarca já chegou aos 83 anos e não tem ido às compras, é ela que fica responsável e já prevê aquela dor no bolso.

"Eu vou na terça-feira na Feira de São Joaquim para comprar tudo no mesmo dia. Acredito que vamos gastar mais esse ano, por menor que seja o valor do caruru. Só o quiabo já está muito caro e vai ter impacto. Camarão é o que a gente ainda consegue achar por um preço bom, mas no final vai dar mais caro. Pelo menos, uns R$ 100 a mais vamos gastar aqui", fala ela, que é técnica em enfermagem.

A funcionária pública Márcia Alves, 58, também vai seguir a tradição e fazer o caruru em setembro. Ela até se adiantou e comprou alguns itens, mas ainda vai precisar ir na feira pegar o quiabo. Com o preço do cento onde está, ela prevê um aumento de 60% nos gastos.

"Não sei dizer quantos reais porque me confundo, mas como o quiabo representa mais da metade do que gasto no caruru, acho que vou gastar uns 50% a 60% a mais do que no ano passado. Está doendo no bolso, mas não pode deixar de fazer e a gente sempre dá um jeito. Tira um dinheiro dali, pega um aqui e consigo arcar", diz.

Paulo Neto, 43, foi na feira comprar os ítens do caruru para a sua mãe, que faz questão sempre de dar o banquete por uma promessa que ele não lembra qual foi. Na feira, teve que tirar dinheiro do bolso para pagar tudo porque a compra superou o que estava previsto. "Ela me deu R$ 200 e eu precisei colocar mais uns R$ 80 aqui porque não deu, aumentou demais. O quiabo é o pior poldque mais que dobrou o preço. E só aqui estou levando quatro centos. Na hora que você junta com todo o resto, a conta não fecha e tive que colocar a mais", fala ele, surpreso com o aumento do cento.

Por que subiu?
Para os comerciantes, a disparada no preço do quiabo, apesar de ser maior do que em outros anos, tem a ver com a oferta e a demanda. É o que acredita, por exemplo, Francisco Carlos dos Santos, 57, que trabalha há 43 anos na Feira de São Joaquim.


"Quiabo sobe e abaixa, é normal. Tem uns dois meses, mais ou menos, que você não encontra por menos de R$ 15 o cento. Como a demanda é alta, fica mais caro porque está vindo pouco também e muita gente procura. Esse mês a venda aumenta 100%", relata ele, que espera dobrar o volume de vendas nesse mês.

Presidente da Associação dos Permissionários da Ceasa-Ba, Márcio Roberto de Almeida aponta que a elevação do preço não tem a ver apenas com a maior procura em setembro. De acordo com ele, um conjunto de fatores opera sobre o valor do produto.

"Houve uma queda na oferta de quiabo, mas, na verdade, são vários fatores com influência nesse aumento que vemos hoje. A mão de obra, os insumos e o próprio valor do combustível acabam sendo vetores dessa alta. Tudo isso, aliado a queda na oferta do item, joga o preço para cima", explica o presidente.

Ainda de acordo com Almeida, no que se refere a redução de quiabos entregues pelos produtores, o período chuvoso é um dos principais motivos para que haja uma escassez do item no momento. "O quiabo é uma cultura de clima seco. A chuva, por incrível que pareça, é fundamental para a produção, mas, no momento da colheita, ela chega a prejudicar. A flor do quiabo tem um aborto muito grande em períodos chuvosos. Então, se chove, cai a qualidade e também a produção", afirma, ressaltando que, com as condições climáticas atuais, é possível que a produção diminua e o preço ainda cresça.

Vai subir mais
O que é colocado como possibilidade pelo Ceasa, para os feirantes, é tido como certo.  Roberto do Anjos afirma ser inevitável que o preço saia do patamar e suba ainda mais. De acordo com ele, já em outros anos o cento chegou a R$ 25 e isso deve se repetir.

"A tendência é que esse cento vá para R$ 25 depois do dia 20 de setembro, podendo chegar até R$ 30. Isso é certo porque a demanda cresce muito, o volume vai ser menor esse ano, principalmente, se tiver chovendo e a gente vai precisar subir o valor para fechar a conta", diz.

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