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Geral Saúde

Adesão a vacina da Covid-19 registra queda a cada dose de reforço

Nem mesmo a oferta da bivalente convenceu população a tomar regularmente as doses de reforço da vacina

10/04/2023 08h09 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Keila Abreu Fonte: A Tarde
 Rafaela Araújo | Ag. A TARDE
Rafaela Araújo | Ag. A TARDE

Oitocentos e quarenta novos casos de covid-19 foram registrados no último boletim da Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab), referente à semana entre 26 de março e 1º de abril. O número é pequeno quando comparado às 9.837 infecções computadas em 24 horas em 4 de fevereiro do ano passado, mas poderia ser ainda menor se a população tomasse regularmente as doses de reforço da vacina.

Quase 95% do público-alvo do estado, formado por 12.732.254 pessoas acima de 12 anos, tomou a primeira dose da vacina, mas somente 28% deles voltou aos postos para a segunda dose de reforço. A adesão à vacinação caiu gradualmente dose após dose e nem mesmo a oferta da versão bivalente, com maior proteção contra a ômicron, reverteu esse quadro.

“Claro que a gente tem um cenário epidemiológico melhor quando comparado com os outros anos da pandemia, mas ainda não é o cenário ideal. Um cenário ideal seria termos casos quase zerados, aparecerem, dois casos, dez casos, quarenta casos, como a gente tem hoje com a influenza. Ainda temos casos de H1N1, ainda tem óbito, mas, em 2023, até agora, tivemos oito casos”, explica a diretora de vigilância epidemiológica da Sesab, Márcia São Pedro. 

Márcia ressalta que a queda expressiva de casos, e especialmente de mortes, em comparação ao registrado ao longo de 2020 e 2021, e parte de 2022, é resultado da vacinação, assim como a realização do Carnaval sem gerar uma explosão no registro de pessoas com covid. 

Na última sexta-feira, o estado tinha 275 casos ativos e 26 mortes haviam sido registradas na semana epidemiológica de 26/3 a 1/4. No começo de 2022, quando a variante ômicron passou a ser dominante, o estado chegou a registrar 31.884 casos ativos no boletim de 29 de janeiro. O boletim de 7 de abril de 2021, quando a vacinação ainda era incipiente, a Bahia registrou 189 mortes em 24 horas. 

O mais importante do público habilitado fazer a vacinação bivalente é aumentar a proteção contra a ômicron, pois esse imunizante é feito com essa variante e a cepa original do vírus causador da covid (Sars-Cov-2). Com maior poder de transmissão, a variante ômicron, atualmente, é a que tem maior circulação na Bahia. Essa cepa do vírus foi a responsável pela alta de casos ocorrida nos primeiros meses de 2022. 

Estratégia

Para entender melhor o diferencial da vacina bivalente basta lembrar que a cada ano é ofertada uma nova vacina contra a influenza, para atualizar as variantes que servem de base para a sua produção, oferecendo assim uma proteção mais direcionada. “Claro que a gente sabe que quem já foi vacinado pode contrair a covid, mas vai ter manifestações clínicas melhores, embora seja um vírus com comportamento diferenciado, então algum caso pode complicar”, pondera Márcia. 

Gerente do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Salvador (Cievs/SMS), Cristiane Cardoso lembra que a relação das pessoas com sintomas suspeitos mudou bastante ao longo desses três anos. Ela comenta que a Universidade Johns Hopkins, uma referência mundial nas estatísticas da doença, encerrou a alimentação de dados sobre a covid no mês passado, e um dos motivos foi a queda de consistência. 

“Nesse momento, as pessoas já não buscam mais as unidades de saúde, porque os sintomas têm sido mais leves e até quando apresentam sintomas um pouco mais intensos, elas já não estão mais fazendo os testes. Para que a gente possa de fato confirmar um caso de pessoa infectada pelo vírus Sars-Cov-2 ela precisa fazer o teste, então se ela não faz o teste, a gente não consegue acompanhar a curva de casos”, explica Cristiane.

Efeito da vacina

A gerente do Cievs/SMS comemora o fato de Salvador ter conseguido retomar os grandes eventos sem um aumento significativo no contágio. “No Carnaval, além de ter muita gente aglomerada, as pessoas tendem a ficar com a imunidade mais baixa, pois não dormem direito, desidratam…”, comenta. O bom prognóstico, no entanto, não significa que a vacinação se tornou desnecessária, alerta. 

A coordenadora de imunização da SMS, Doiane Lemos, ressalta que o controle da pandemia de covid-19 só foi alcançado graças às vacinas. Paradoxalmente, o sucesso da vacinação, que permitiu a plena retomada das atividades econômicas e dos hábitos de vida, levou a população a considerar desnecessário a tomada de novas doses de vacina. 

Doiane lembra que a proteção promovida pela vacina vai diminuindo com o passar do tempo, então cada dose de reforço é indispensável para que a resposta imunológica seja mantida no patamar adequado.

Síndrome desafia profissionais

Enquanto a fase aguda da covid-19 já é bastante compreendida pelos médicos e cientistas, a covid longa, também chamada de síndrome pós-covid ainda desafia os profissionais de saúde e pesquisadores. O fato é que várias pessoas, a exemplo do profissional de marketing Rodrigo Cavalcanti, 44 anos, apresentam sintomas relacionados à infecção pelo Sars-cov-2 muito tempo após a eliminação do vírus no corpo.

Em meio a possíveis impactos da internação por quase um mês, duas coisas são claramente relacionadas à covid pelos médicos que acompanham Rodrigo: as alterações no paladar e na capacidade de memorização. Os sintomas permanecem dois anos após a sua alta. “Eu deixei de sentir alguns sabores, eu ainda não sinto direito o sal, algumas coisas mais ácidas eu não consigo identificar na comida”, conta.

Rodrigo tem feito tratamentos para recuperar plenamente o paladar e adotou estratégias para que as falhas de memória não impactam seu trabalho. “Passei a desenvolver novos métodos, usar aplicativos, fichas, anotações que eu não fazia porque antes tudo isso estava em um processo mais automático da memória e hoje eu preciso desse aparato”, explica. 

Pesquisadora da Fiocruz Bahia, a imunologista Viviane Boaventura lembra que a covid longa não é exclusividade de pacientes que foram internados, sendo verificada também em pessoas com quadro mais leve da doença. Para a Organização Mundial da Saúde, a covid longa é caracterizada pela persistência de sintomas após três meses da finalização da fase aguda. 

A fadiga, que pode ser intensa a ponto de atrapalhar a manutenção das atividades cotidianas, a falta de ar e dores em diversas partes do corpo, especialmente cabeça e tórax, são alguns dos sintomas apontados pela médica como mais comuns. “Tem pessoas com perda de memória ou que têm distúrbios do sono, ansiedade, quadros depressivos; tem alterações relacionadas ao sistema cardiovascular, a exemplo da arritmia; queixas tegumentares como queda de cabelo e desenvolvimento de rash cutâneo”, completa. 

Viviane ressalta que estudos estão sendo desenvolvidos em todo o mundo para buscar entender porque alguns pacientes apresentam esse quadro prolongado e os profissionais de saúde precisam estar atentos às descobertas relacionadas ao tema para identificar os quadros. 

Em Salvador, pacientes que tiveram covid e apresentam sintomas persistentes contam com o Ambulatório Pós-Covid do Hospital Especializado Octávio Mangabeira, com atendimento pelo SUS. Para agendar uma consulta é preciso buscar a Central de Marcação do hospital ou fazer contato pelo WhatsApp (71) 3117-1677.

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