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Geral Lorena Dias

Poltrona 22

Lorena Dias é jornalista e blogueira. É repórter da CBN e escreve para o Mais Região às quartas, a cada duas semanas.

17/08/2016 08h43 Atualizada há 10 anos atrás
Por: Redação Fonte: Lorena Dias
O salário está curto, as contas estão altas, os serviços e produtos estão caros. O governo reduz benefícios e aumenta os impostos. As empresas lucram em cima das nossas necessidades. O brasileiro se sente explorado como se estivesse novamente sendo colonizado por portugueses. Estão todos à flor da pele, não aguentam mais.

O ônibus estaciona em uma das vagas numeradas da plataforma B, na rodoviária, onde uma fila cheia de passageiros estressados o aguardam após um cansativo dia de trabalho. Duas amigas de meia idade sobem no veículo, checam suas passagens e sentam-se nos seus respectivos lugares. Uma na poltrona 22 e outra na cadeira do lado oposto do corredor.

– Senhora, você está sentada no meu lugar – diz um homem.

– Impossível, estou no lugar certo, poltrona 22 – afirma a mulher, lhe mostrando a passagem.

– Deve ter algo errado, porque a minha passagem indica que esse também é meu lugar – argumenta.

– Não vou sair do meu lugar, é meu direito – replica a mulher.

Outros passageiros, que aguardavam a discussão terminar para seguir pelo corredor, começam a reclamar. “Moço, senta em outro lugar!”, grita uma jovem. “Motorista, vem resolver esse problema aqui, que eu quero achar meu lugar pra sentar”, reclama um rapaz. Enquanto isso, o homem e a mulher continuam a discutir pelo seu direito à cadeira 22,  supostamente comprovado na passagem de cada um.

O homem abre espaço no corredor para que as outras pessoas passem em busca dos seus respectivos lugares no ônibus. Por fim, quando nota que todos os passageiros já haviam se sentado e algumas poltronas permaneciam vazias, ele desiste da poltrona 22.

A mulher reclama da ambição da empresa de ônibus vendendo para dois passageiros uma mesma poltrona. Uma outra passageira pede para ver a passagem dos dois, está curiosa e abismada em como as empresas poderiam ser tão “mercenárias”. Plataforma B 22, poltrona 4, diz a passagem do homem. Envergonhado, ele continua sentado na poltrona 13, que não fora vendida naquele dia.

O ônibus começa a andar e a mulher da poltrona 22 nota que a cadeira ao lado da amiga, do outro lado do corredor, não fora ocupada. Muda de lugar e conversa com a amiga sobre um assunto que nada tinha a ver com seus direitos.

A poltrona 22, por sua vez, segue vazia durante todo o percurso. Símbolo de como a dificuldade de dar o braço a torcer para não ser mais uma vez explorado faz com que lutemos pelos motivos errados.
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