Estava em um restaurante em Salvador, saboreando uma ótima conversa e um bom vinho, quando o garçom trouxe o nosso prato principal: um confitado de bacalhau com cebola, assado no forno e servido com lâminas de batata ao murro. “Nossa, que prato lindo!”, comentamos, deslumbrados.
Preparamos os nossos pratos para que o garçom pudesse nos servir. Mas ele, por sua vez, não se moveu. “Podem tirar a foto”, disse. Surpresos, explicamos que se tratava apenas de um elogio. “Vocês não precisam ficar tímidos, já estou acostumado. Sempre espero todo mundo tirar a foto desse bacalhau antes de começar a servir”, incentivou-nos.
O instafood, hábito de fotografar a própria comida e postar no Instagram, é apenas um reflexo da nossa sociedade que tem cada vez mais a necessidade de registrar e divulgar tudo aquilo que faz (ou come). Para algumas pessoas, esse registro é tão essencial, que se não postam, é quase como se o momento não tivesse acontecido.
Se bateu um tambor na esquina, se foi pra um aniversário de boneca, se viajou pra casa da avó: posta. Se nadou com golfinhos, se conheceu Paris, se foi no show do artista preferido: também, lógico. Primeiro, tem coisas que você não precisa postar. Segundo, tem momentos em que você precisa priorizar a vivência e não a postagem.
A história do show do artista preferido é do meu amigo. Ele disse que estava tão empolgado pela presença da cantora que tanto admirava bem ali, no palco principal do TCA, que passou metade da apresentação fazendo vários vídeos com o celular. Mas ai ele percebeu que estava, finalmente, assistindo àquele show ao vivo, mas pela tela do aparelho. Guardou o celular e voltou seus olhos para o palco. A vivência daquela emoção foi mais importante que o registro da mesma.
No dia do restaurante, explicamos para o garçom que de fato não queríamos fotografar a comida, apenas saborear aquele prato que parecia estar delicioso (e já estava esfriando). Meio sem entender nossa reação, o garçom nos serviu. E se retirou dando risada daqueles dois estranhos que não fotografavam o prato antes de comer.
Não estou dizendo que devemos parar de registrar e publicar os momentos da nossa vida. Ainda mais quando eles são do tipo divertidos, interessantes, até mesmo inesquecíveis. Mas, convenhamos que, há algo errado em viver pra postar. O post, a foto, o compartilhamento, não deve ser o nosso principal objetivo.
Precisamos resgatar o prazer de vivenciar os momentos com todos os nossos sentidos, com o nosso próprio olhar, paladar, e não com a lente do celular. Até porque, as melhores coisas da vida acontecem quando estamos offline. Pelo menos, a maior parte delas.
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