Uma das lembranças mais vivas que os familiares de Dona Canô (1907-2012) têm de sua matriarca é a de uma mesa de refeições farta na casa dela, em Santo Amaro, onde se reuniam para se deliciar com pratos como maniçoba, frigideira de maturi ou um bom prato da culinária baiana.
Agora, os soteropolitanos vão poder sentir um pouco do clima daquelas reuniões familiares: será aberta amanhã, na Caixa Cultural, na Rua Carlos Gomes, a exposição Ser Feliz É Para Quem Tem Coragem, que reúne objetos pessoais, fotografias, textos, canções, poemas, vídeos e depoimentos em torno dos 105 anos de vida de Dona Canô. A abertura é para convidados e a visitação será de sexta-feira até o dia 27 de maio.
Memória
Até a tal mesa onde a família se reunia estará reproduzida na mostra. Ju Velloso Mesquita, neta de Canô, lembra da avó e do avô, Zeca, jantando juntos, sentados nas mesmas cadeiras que estão na exposição: “Eles sempre dividiam a mesma cabeceira e ficavam ali, apertadinhos, um ao lado do outro. Muito diferente de hoje, em que marido e mulher, às vezes, nem têm tempo para almoçar juntos. À noite, na cama, eles ainda dividiam um só travesseiro”.
Nos pratos postos à mesa serão projetados vídeos com depoimentos dos filhos e netos de Canô, incluindo os ilustres Caetano Veloso e Maria Bethânia.
Ju também fez a curadoria da exposição, tarefa que dividiu com Elaine Hazin e Tania Fraccaroli. As curadoras foram a Santo Amaro para selecionar o material da exposição. Lá, foram recebidas pelos irmãos Rodrigo - um guardião do acervo da família - e Mabel Velloso.
“A gente foi pegando as coisas guardadas, algumas numa caixa, e cada uma delas tinha um pouco de Santo Amaro. Me emocionei muito. Minha mãe morreu há cinco anos, mas, claro, a gente ainda se emociona”, diz Mabel. A exposição é dividida em diversos ambientes que remetem a Dona Canô.
Um deles é a igreja, que faz referência à fé, muito presente no dia a dia da família. Tanto que um altar, como o que Canô tinha em casa, está na Caixa Cultural. “Ela tinha uns nichos antigos, em que guardava os santos. E era tudo que é santo! As pessoas a presenteavam com santos. E chegava uma hora que não cabia mais no nicho”, observa Mabel. Os terços que Dona Canô usava para rezar também fazem parte do acervo.
Mulher de fé
A religiosidade era tão presente na vida da matriarca, que, para tudo, ela costumava realizar uma missa. Fosse para celebrar o aniversário de um familiar ou para dar sorte a uma nova turnê dos filhos Caetano e Maria Bethânia, ela fazia questão de ir à igreja. E Mabel herdou um pouco disso: tanto que encomendou uma missa, especialmente para comemorar a exposição que está sendo aberta.
A vida de Zeca e Canô juntos também é festejada na mostra. Estão ali as cartas que o marido apaixonado - morto aos 82 anos, em 1982 - escrevia à esposa. “Todos os objetos permaneciam intocados desde a morte de Dona Canô, há cinco anos. Pela primeira vez, a família mexeu neles”, observa Elaine Hazin.
Também estão no acervo joias que a matriarca usava e quadros que enfeitavam a casa. Um dos itens que devem despertar interesse é o vestido que ela usou no último aniverário. Uma curiosidade: nas suas festas, Canô não repetia roupas e passava o ano inteiro planejando qual seria o figurino da festa seguinte. No ano que antecedeu a celebração do centenário, ela comemorava antecipadamante todo mês, graças a uma ideia de Rodrigo.
O mesmo Rodrigo teve a ideia de criar um terno de reis especial para celebrar, todos os anos, no dia 7 de janeiro, o casamento dos pais, desde que celebraram 23 anos de casados. O estandarte usado naquela celebração está na exposição, na área batizada Terno de Reis.
Canô e Zeca viveram juntos por 53 anos, até a morte dele, que teve câncer nos ossos. “Foram cinco décadas de muita felicidade. Foram felizes por todos os filhos e acho que nenhum de nós soube ser feliz como eles foram. Eu, de tanto vê-los felizes, fiquei triste quando me dei conta de que a felicidade não é hereditária”, revela Mabel.
Um outro ambiente, logo na entrada da exposição, é a Feira, que reproduz a feira popular da cidade, muito frequentada por Dona Canô. Ali estão depoimentos de pessoas da cidade que conviveram com ela, como o feirante, a cozinheira e o motorista.
Há ainda o espaço Teatro, em referência à casa de espetáculos de Santo Amaro que leva o nome de Dona Canô. Na exposição, o espaço reúne vídeos da matriarca cantando. O início da exposição, em março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, não foi por acaso, segundo as realizadoras. “Essa exposição mostra um pouco da vida dessa mulher à frente do seu tempo, que soube fazer sua vida além de todas as possibilidades”, destaca Tania Fraccaroli.
Canô, uma menina
“Minha avó sempre foi para mim uma menina. Construiu uma vida de sonhos, harmonia, confiança, abundância e sinceridade. É uma alegria imensa poder realizar uma exposição sobre essa mulher forte que foi Canô”, diz Ju.
Por enquanto, não se sabe se a exposição seguirá para outras cidades. “Nós torcemos muito para irmos a outras capitais, como São Paulo e Rio. Não paro de receber pedidos de diversas regiões. É possível que vá, porque agora o processo é mais simples, já que, nesta fase, dispensa edital”, diz Ju. A exposição foi viabilizada por meio de edital da Caixa Cultural.
SERVIÇO
Exposição: Ser Feliz é Para Quem Tem Coragem
Abertura: 1º de março de 2018 (quinta-feira), às 19h
Período: 2 de março a 27 de maio de 2018
Horário: das 9h às 18h, de terças-feiras a domingos
Local: CAIXA Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro – Salvador)
Entrada franca
Informações: (71) 3421-4200
Classificação indicativa: livre
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