No sábado (23), às 18h, o espetáculo “Vovô” continua sua circulação pela Bahia, desta vez em Camaçari, no Terreiro Ilê Axé Raízes Obá Kossô Omi, o segundo mais antigo do município, com quase um século de existência. Esta será a terceira parada do projeto “Raízes que Povoam”, que tem levado arte e ancestralidade para terreiros baianos de candomblé. A última apresentação acontecerá no Recôncavo Baiano, na cidade de Santo Amaro. Com entrada gratuita, a peça convida o público para uma imersão afetiva na figura do avô negro, símbolo de memória, sabedoria e resistência nas famílias pretas brasileiras. O projeto é uma realização do Instituto de Arte e Cultura da Bahia (IAC-BA) / Teatroescola.
No mesmo dia, das 14h às 16h, antes da exibição teatral, será realizado um workshop de introdução à produção cultural exclusivo para membros do terreiro, conduzido por Nell Araújo, fundador e gestor do IAC-BA e do Teatroescola, a primeira escola artística inclusiva do Nordeste, e gestor do Teatro Jorge Amado. O objetivo é capacitar os participantes nas áreas de elaboração de projetos, comunicação, gestão financeira e estratégias para fortalecimento da cultura de terreiro.
“Para um espaço de terreiro quase centenário, receber um espetáculo tão singular como “Vovô” demonstra a força da nossa gente. A egbé tem se fortificado ao longo dos anos, a partir de nossos antepassados, e ter nesse local uma arte que reforça nossa crença, nossos ensinamentos e o respeito da nossa gente pelos que já passaram é também ensinar a viver com Orixá! Orixá vive onde há respeito e valor. As religiões de matriz africana se baseiam nesse ideal e passam seus ensinamentos seguindo essa lógica. O espetáculo nos traz essa reflexão, é a forma pura de ensinar sobre ancestralidade”, comenta o Babalorixá Jorge D’ Olwaiyè, líder espiritual do Terreiro Ilê Axé Raízes Obá Kossô Omi.
O co-criador do projeto e ator da peça, Rafa Martins, destaca a importância de levar o espetáculo “Vovô” para os terreiros, pois dialogam diretamente com os temas centrais do enredo, como amor, cuidado, respeito, mas também tristeza e rancor. “Já fizemos temporadas online, por Salvador, pelo Rio de Janeiro, mas acho que um dos espaços mais importantes e simbólicos é, de fato, o terreiro, porque está carregado de outras coisas”, avalia.
Criado em abril de 2021, durante a pandemia, “Vovô” nasceu como uma criação pensada para o formato virtual, gravada dentro de casa com celulares. Em 2023, ganhou adaptação para o formato presencial, sob direção de Leno Sacramento, artista do Bando de Teatro Olodum. Com dramaturgia sensível e poética, a montagem é interpretada pelos atores soteropolitanos Pedro Zaki e Rafa Martins e agora assume uma nova perspectiva, com diferentes movimentos, expressões e novas sensações.
Fundado em 1930 pela Iyálorixá Obá Jikwê (Helenita Maria de Jesus), o Ilê Axé Raízes Obá Kossô Omi é um templo de 95 anos de tradição Ketu, localizado no distrito de Parafuso, em Camaçari. Primeira casa de alvenaria erguida em Parafuso, tornou-se referência histórica e espiritual, tendo como patronos os orixás Xangô, senhor da justiça, e Oxum, divindade da fertilidade. Ao longo de sua trajetória, a sucessão sacerdotal foi conduzida por mulheres de grande importância: a fundadora Iyá Obá Jikwê, seguida por Iyá Feromi, que foi recentemente homenageada por sua contribuição ao candomblé na comunidade local. Desde então, a casa está sob a liderança do Babalorixá Jorge D’Olwaiyè, que cultua Omolu como seu orixá de cabeça.
Além de sua relevância religiosa, o Ilê Axé Raízes Obá Kossô Omi desempenha um papel fundamental na vida comunitária, promovendo ações sociais, educativas e. Suas Ágbas foram responsáveis pelo registro de outros terreiros da localidade e pela alfabetização de diversas pessoas na região, o que faz do lugar também um espaço de conhecimento e cidadania. Atualmente, a casa desenvolve projetos voltados para o fortalecimento da identidade cultural, como cursos de língua iorubá, corte, costura e cozinha ancestral, reafirmando o terreiro como guardião de memórias, tradições e práticas de cuidado coletivo em Camaçari.
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