Quarta, 01 de Julho de 2026 18:29
(71) 99663.6360
Geral Violência

Bahia registra 97 feminicídios entre janeiro e início de dezembro de 2025

Salvador lidera número de casos no estado, e mulheres de 30 a 34 anos formam a faixa etária mais atingida

14/12/2025 10h08
Por: Luana Velloso Fonte: G1
Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

A Bahia registrou 97 casos de feminicídio entre janeiro e 8 de dezembro de 2025, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. O levantamento aponta que o crime, caracterizado pelo homicídio motivado pela condição de gênero da vítima, ocorreu de forma distribuída em diferentes regiões do estado ao longo do ano.

Entre os municípios baianos, Salvador concentrou o maior número de ocorrências, com 10 feminicídios no período analisado. Feira de Santana aparece em seguida, com cinco casos, e Camaçari, com quatro. Um dos crimes mais recentes ocorreu na noite de 6 de dezembro, em Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, quando o motorista por aplicativo Sérgio Henrique Lima dos Santos, de 19 anos, matou a jovem Rhianna Alves, mulher trans, de 18 anos, com um golpe conhecido como mata-leão.

O caso ganhou repercussão nacional após o suspeito levar o corpo à delegacia e ser liberado ao alegar legítima defesa. Ele foi preso e indiciado quatro dias depois. Os dados da SSP-BA indicam que a faixa etária entre 30 e 34 anos concentra o maior número de vítimas, representando 16,5% dos registros. Em seguida aparecem mulheres de 35 a 39 anos e de 40 a 44 anos, ambas com 15,5%.

Quanto ao perfil racial, mulheres pardas correspondem a 61,86% das vítimas, enquanto mulheres pretas somam 14,46% e mulheres brancas, 4,12%. Casos envolvendo mulheres indígenas representam 1,03%. Em 18,56% das notificações, não há informação sobre cor ou raça.

A distribuição mensal revela poucas oscilações ao longo de 2025. Abril foi o mês com maior número de feminicídios, totalizando 13 ocorrências. Nesse período, Jaqueline Vieira Moura, de 43 anos, foi encontrada morta com sinais de estrangulamento no Bairro da Paz, em Salvador. Segundo a Polícia Civil, o namorado era o principal suspeito e acabou agredido pela população, sendo socorrido, mas não resistiu.

Em novembro, mês com 12 registros, a jovem Iane de Jesus Branco, de 26 anos, foi morta a golpes de blocos de cerâmica na frente do filho de 4 anos, dentro da própria casa, na cidade de Santana, no oeste do estado. O companheiro da vítima foi preso. Em fevereiro, Terezinha Pires dos Santos, de 43 anos, foi morta com um tiro no pescoço em Santa Maria da Vitória, também no oeste baiano. Ao lado do corpo, foi deixado um bilhete com ofensas, e o companheiro era o principal suspeito.

A psicóloga e professora da Universidade Federal da Bahia, Darlane Andrade, avalia que os fatores que mantêm mulheres em relações violentas estão ligados a padrões históricos, sociais e culturais. “Esse amor e a necessidade de ser validada pelo outro, acaba sendo muitas vezes o motivo que leva as mulheres a permanecer em relações afetivas, mesmo quando violentas”, afirma. Ela destaca que os principais agressores costumam ser homens próximos, como companheiros, ex-companheiros e familiares.

Para a especialista, o feminicídio representa o ápice das violências de gênero. “O feminicídio é o ápice das violências de gênero contra as mulheres, que inclui mulheres trans também, e a gente vê como a transfobia está sendo expressa. Essa violência expressa toda a cultura machista, conservadora e misógina que traz o ódio às mulheres como sua base”.

A psicóloga e mestra em gênero Ilana Marques aponta que a dependência emocional dificulta o reconhecimento de abusos. Segundo ela, relações abusivas se estruturam na lógica de desigualdade entre os parceiros. “Quando a mulher é levada a acreditar que ocupa essa posição inferior, tende a perder a percepção de igualdade, o que dificulta questionar comportamentos, reclamar de violências ou se posicionar diante do companheiro”.

Em Salvador, a secretária municipal de Política para Mulheres, Infância e Juventude, Fernanda Lordêlo, afirma que os números absolutos devem considerar a dimensão populacional da capital, com mais de 2,5 milhões de habitantes. Ela informa que foram registrados 20 feminicídios em 2023, nove em 2024 e dez em 2025, até o início de dezembro, e ressalta que todas as vítimas deste ano não haviam buscado a rede de proteção nem solicitado medidas protetivas. Segundo a secretária, o município conta com centros de referência, patrulha especializada e dispositivos de acionamento emergencial para atendimento às mulheres.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Sobre o município