A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita nesta quarta-feira (11) presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. A parlamentar recebeu 11 votos, enquanto dez deputados votaram em branco. Com o resultado, ela se tornou a primeira mulher trans a assumir a presidência do colegiado no Congresso Nacional.
Além da presidência, também foram eleitas para a mesa diretora da comissão as deputadas Laura Carneiro (PSD-RJ), como primeira vice-presidente, Adriana Accorsi (PT-GO), como segunda vice-presidente, e Socorro Neri (PP-AC), como terceira vice-presidente. A presidência da comissão era ocupada anteriormente pela deputada Célia Xakriabá (PSOL-MG).
A votação ocorreu com chapa única, resultado de acordo entre partidos sobre a divisão das presidências das comissões da Câmara, que definiu que o colegiado voltado aos direitos das mulheres ficaria sob indicação do PSOL.
Durante discurso após a eleição, Erika Hilton afirmou que o trabalho da comissão deve priorizar o enfrentamento de problemas que afetam as mulheres no país e destacou a necessidade de concentrar o debate em pautas relacionadas à violência e aos discursos de ódio nas redes sociais. “Espero que nós, com a pluralidade de partidos que aqui compõe essa comissão, não nos preocupemos e não demos importância à condição de gênero da presidenta da Comissão da Mulher, mas o que vale aqui de fato são as problemáticas que nós precisamos enfrentar. Seja enfrentar o discurso de ódio, o crescimento desta onda de 'Incel' e 'Redpill' que dominam as redes sociais, dominam a vida das pessoas. Ao ponto de vermos um homem se entregar para a polícia com a frase: 'não se arrependa de nada'. Esta é a prioridade desta comissão”, disse.
Em publicação nas redes sociais, a deputada também comentou a eleição. “Assumir essa presidência é uma responsabilidade gigantesca. Assumi-la incomodando essa trupe nojenta e odiosa demonstra a gravidade da situação em que nosso país se encontra [...] Enquanto Presidenta, não permitirei que discursos que tentam nos dividir dominem essa Comissão que é de TODAS as mulheres”, escreveu.
Reação de parlamentares da direita
A eleição gerou reação de parlamentares identificados com a direita, que votaram em branco como forma de protesto e questionaram a representatividade da deputada na presidência da comissão.
A deputada Clarissa Tércio (PP-PE) afirmou que não poderia parabenizar a eleição e criticou o resultado da votação. “Não tenho como parabenizar o que aconteceu aqui hoje. Porque a deputada assume essa cadeira com um peso muito grande, de ter dividido essa comissão, de ter tido 12 votos em branco, ou seja, a maioria contrária à sua eleição. Tenho certeza, se essa eleição ocorresse com as mulheres do Brasil, as mulheres biológicas, com toda a certeza você não estaria sentada nessa cadeira”, declarou.
A parlamentar também afirmou que apenas mulheres cisgênero poderiam representar plenamente as pautas femininas. “Como posso ser representada por uma pessoa que não entende o que eu passo? (…) Que nunca soube o que é saúde da mulher, pra representar o que a mulher pensa? Falar sobre a violência contra a mulher, igualdade no trabalho, falar sobre filhos? Essa comissão nasceu para dar vozes às mulheres. Porque só quem vive essa realidade é que tem propriedade pra falar sobre elas”, disse.
A deputada Chris Tonietto (PL-RJ) também criticou a escolha e afirmou que não se sente representada pela presidência da comissão. “Preciso lamentar, porque, na condição de mulher, não me representa (…) Se essa comissão for transformada em palanque político eleitoreiro, só pra lacração de rede social, bancada da selfie, não vai ter como essa comissão andar muito bem”, declarou.
O deputado Éder Mauro (PL-PA), integrante da comissão, afirmou respeitar Erika Hilton, mas disse que o colegiado deveria ser presidido por uma mulher cisgênero. “Estamos vendo o pior índice de feminicídio já visto em toda a história, problemas que a mulher hoje enfrenta, agressões, que são espancadas, que têm salários mais baixos (…) Como uma mulher pode aceitar que os seus direitos sejam defendidos por quem não é mulher?”, questionou.
Nas redes sociais, o deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP) também comentou o resultado da votação e destacou o número de votos em branco no primeiro turno.
Apoio à eleição
Apesar das críticas, outras parlamentares manifestaram apoio à escolha de Erika Hilton para presidir o colegiado. Entre elas estão as deputadas Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Erika Kokay (PT-DF) e Juliana Cardoso (PT-SP), que parabenizaram a parlamentar após o resultado.
Erika Hilton é a primeira deputada federal negra e trans eleita no Brasil.
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