A Justiça manteve as prisões de quatro advogados investigados na Operação Sintonia de Gravata, que apura um suposto esquema de comunicação entre integrantes de facções criminosas presos e pessoas em liberdade. As prisões em flagrante foram convertidas em preventivas após audiências de custódia realizadas no domingo (5), em Salvador.
Conforme apurado pela TV Bahia, tiveram as prisões preventivas decretadas Izabela da Silva de Oliveira, Luã Santos da Costa, Maria Mariana Batista de Oliveira e Tamires Felix Alves Silva. Após as audiências, os quatro deixaram o Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e foram encaminhados ao sistema prisional.
Já os advogados Ícaro Cardoso Viana e Fernanda Oliveira Borges foram presos em Serrinha. As audiências de custódia deles são de competência da Justiça local. O processo tramita sob segredo de Justiça e, por esse motivo, os detalhes da investigação não foram divulgados oficialmente.
A operação investiga a atuação de um grupo suspeito de facilitar a comunicação entre lideranças de facções criminosas e integrantes em liberdade, envolvendo crimes como tráfico de drogas, aquisição, circulação, posse e guarda de armas de fogo, além da articulação de ações criminosas a partir de unidades prisionais.
Além dos advogados, 12 detentos que já estavam custodiados também tiveram novos mandados de prisão cumpridos durante a operação.
Inicialmente, nove dos dez advogados alvos haviam sido localizados. O último investigado foi preso no fim da tarde de sexta-feira (3), após ser encontrado escondido em uma residência no município de Marcionílio Souza, no interior da Bahia.
Ao todo, também foram cumpridos 15 mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Vara Criminal da Comarca de Eunápolis, com diligências realizadas em Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Feira de Santana, Serrinha e Barreiras.
Segundo a investigação, os advogados atuariam em favor de diferentes lideranças de facções criminosas com atuação em diversas regiões da Bahia, entre elas integrantes do Comando Vermelho (CV), Bonde do Maluco (BDM) e Terceiro Comando Puro (TCP).
Gravações e bilhetes
Reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, revelou imagens obtidas por meio de câmeras instaladas, com autorização judicial, no parlatório de uma unidade prisional. As gravações, realizadas entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, mostram encontros entre advogados e detentos investigados.
De acordo com a apuração, os registros indicam que eram repassadas orientações relacionadas à compra e venda de armas, contabilidade do tráfico de drogas, além de planejamentos de homicídios e sequestros. A investigação também aponta que bilhetes com instruções das facções eram escondidos sob as roupas íntimas para tentar burlar a fiscalização.
"Nós estamos tratando de indivíduos que se utilizam de uma prerrogativa da advocacia para cometer crime", afirmou o coordenador do Gaeco do Ministério Público da Bahia, Luiz Ferreira de Freitas Neto. "Denunciamos todos pelo pertencimento ao crime de organização criminosa. Diversos crimes são observados na conversa, desde tráfico de armas, tráfico de drogas, homicídios."
As investigações detalham ainda a atuação individualizada de alguns dos advogados, incluindo suposto transporte de mensagens, anotações sobre movimentações financeiras do tráfico, recolhimento de armamentos e transmissão de ordens relacionadas a cobranças, sequestros e homicídios.
Defesas questionam investigação
A defesa das advogadas Tamires Felix Alves Silva e Izabela da Silva de Oliveira, representadas pela Associação dos Advogados Criminalistas da Bahia (AACB), afirmou que ainda não teve acesso à íntegra dos autos e manifestou preocupação com a condução da investigação.
Em nota, a entidade declarou que não compactua com qualquer conduta ilícita, mas defendeu o respeito às garantias constitucionais, ao devido processo legal e às prerrogativas da advocacia. Também questionou a legalidade da captação ambiental realizada no parlatório da unidade prisional, alegando possível violação ao sigilo profissional.
Até a última atualização do caso, os demais advogados presos ainda não tinham defesa constituída.
OAB acompanha o caso
A Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA) informou que acompanhou o cumprimento dos mandados por meio da Comissão de Direitos e Prerrogativas da entidade.
Segundo a Ordem, a Procuradoria Jurídica solicitou acesso aos autos do inquérito para acompanhar a investigação. Após análise da documentação, o material poderá ser encaminhado ao Tribunal de Ética e Disciplina (TED), que avaliará a adoção das medidas cabíveis, incluindo eventual suspensão preventiva dos advogados investigados.
A OAB também informou que está garantindo o acesso dos advogados constituídos aos autos do processo, em observância ao contraditório, à ampla defesa e às prerrogativas profissionais.
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